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A bomba de salvação

​​​​​​​​​​​​Nas visitas ao domicílio, a equipa da farmácia já teve de prestar primeiros socorros.

Texto de Irina Fernandes • Foto de Miguel Ribeiro Fernandes


​Farmácia Albuquerque - Vinhais

Daniel Jorge, 80 anos, caminha a passos vagarosos em direcção à farmácia. Conhece bem o caminho, mas o ritmo não poderia ser outro. Asmático desde a infância, encontrou na Farmácia Albuquerque uma «casa de confiança». Toda a equipa o trata como se fosse da família. «Eles sabem de cor tudo o que preciso para a minha doença», conta o octogenário.

Natural e residente em Vinhais, tornou-se cliente fiel desde a inauguração. «Foi há muitos, muitos anos. Eu ainda era jovem, tinha os meus 22 anos». O serviço nocturno é uma das chaves para esta ligação umbilical à farmácia. Daniel já perdeu a conta às vezes em que recorreu à Farmácia Albuquerque fora de horas, em situações de grande aflição. «Tenho tido umas quantas crises e eles ajudam-me todos muito». Valoriza especialmente o facto de o atenderem à noite «tão bem como de dia».

Há 700 mil asmáticos em Portugal, para os quais o serviço de saúde de proximidade representa um grande conforto psicológico. «Fico muito mais descansado por saber que aqui tenho quem me ajude. É sempre uma protecção que nós temos», descreve Daniel. Habituado a lidar com crises inesperadas e imprevisíveis, para ele também é vital ter acesso garantido aos medicamentos, sem rupturas. «Quantas vezes acontece que o médico não está disponível e a farmácia me fornece os medicamentos, mesmo antes de eu trazer a receita médica», refere o octogenário.

No período nocturno, a Farmácia Albuquerque funciona em regime de disponibilidade, em alternância semanal com outra farmácia do concelho. A resposta às solicitações dos utentes é assegurada através d​e um contacto telefónico, afixado na montra de ambos os estabelecimentos. «Das nove às 23 horas estamos de porta aberta. A partir daí, sou eu a ficar aqui na maioria das vezes, ou então a colaboradora Filipa Lopes, que reside cá em Vinhais», explica a directora-técnica, Rita Domingues, de 43 anos.

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A directora-técnica, Rita Domingues, faz muitas noites de serviço

Os pedidos dos utentes em horário nocturno são muito diversificados, mas revelam alguns padrões sazonais. «No Inverno, é comum dispensarmos muitos xaropes para a tosse e medicação infantil. Já no período de Verão há mais pedidos relacionados com anti-inflamatórios», expõe a farmacêutica. Nos últimos tempos tem atendido mais pessoas provenientes do hospital de Bragança, a aviar receitas. Conta que acaba por dispensar «muitos medicamentos que normalmente se tem em casa, mas que as pessoas se esquecem de comprar e depois vêm à noite buscar à farmácia».

Trabalhar durante a noite é algo que Rita Domingues encara com naturalidade. «O objectivo é sempre o mesmo, seja de noite ou de dia: estamos aqui para servir uma população. As pessoas precisam de um medicamento e, por isso, temos de estar abertos», afirma, com convicção, a directora-técnica, já com 12 anos de experiência nestas funções

 A população a servir tem o perfil de sempre em terras transmontanas e do Interior de Portugal: envelhecida, polimedicada, com baixa escolaridade, deficiente literacia em saúde e dificuldades de mobilidade. O concelho tem 26 freguesias e as pessoas vivem isoladas, muitas delas em casas dispersas ou pequenas aldeias rurais. A Farmácia Albuquerque dispõe de serviço ao domicílio. Todos os dias vai ao encontro daqueles que, nem de dia, nem de noite, têm possibilidade de se deslocar até à vila. Seja por motivos de saúde, económicos ou geográficos.

Lurdes Maia, 41 anos, técnica de farmácia, é o anjo-da-guarda de muita gente naquelas condições. «Não sei se repararam, mas enquanto estavam a fazer esta entrevista recebi imensas chamadas para o meu telefone pessoal». Ligam-lhe directamente a fazer as encomendas e ficam em casa à espera, na certeza de que a medicação irá lá ter. «Eles teriam de se deslocar 25 ou 30 quilómetros para chegar aqui. É um bocadinho difícil», expõe a técnica de farmácia.

Lurdes Maia trabalha há 13 anos em farmácia e há sete na Farmácia Albuquerque. Irradia alegria ao falar do que faz. Todos os dias conduz entre 100 a 150 quilómetros. «Hoje vou para Vale das Fontes, Vilar de Ouro e Rebordelo. Vou visitar pessoas de muita idade, que estão sozinhas. Há casais de velhos que dependem um do outro, em que se um não pode, o outro muito menos. Há pessoas que têm os filhos fora do país e não têm mais ninguém que as ajude», retrata.

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Lurdes Maia passa os dias a visitar idosos que vivem isolados

As visitas domiciliárias não servem só para entregar medicamentos. Faz muitas vezes de enfermeira, psicóloga e assistente social. Presta auxílio. «Já cheguei à casa de utentes no momento em que se se estavam a sentir mal. Já tive de prestar primeiros socorros», expõe Lurdes Maia. Recorda mesmo um caso em que evitou o pior. «Cheguei a casa de um doente com 86 anos e encontrei-o a sangrar muito, mas mesmo muito. Estava com uma toalha enrolada à cara e a mulher não sabia o que fazer». A técnica de farmácia sabia que era um doente que fazia um medicamento anticoagulante e que provavelmente tinha tomado uma dose excessiva. «Perguntei-lhe como estava o controlo de sangue e ele acabou por confidenciar que tinha falhado». Chamou o INEM, mas a ambulância iria demorar, porque o casal vive isolado, a 25 minutos de carro de Vinhais. Lurdes deitou mão a compressas e água fria. Conseguiu estancar a hemorragia.​


 

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