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A farmacêutica livre

​​​​​​Alzira Lemos nasceu na Terra de Reis e foi soberana toda a vida.​​​​

Texto de Carlos Enes

Para lá do Marão, mandam os que lá estão. Na aldeia de Vale Salgueiro, ditados e rituais exercem-se como direitos, não se discutem. Alzira Lemos nasceu na Terra de Reis e foi soberana toda a vida. Como uma rainha, passeou 97 anos um coração magnânimo, coisa de família.

 – Todos os garotos conheciam a avó Rosinha porque matava a fome a quem fosse preciso. 

Olho vivo, media bem o impacto das suas verdades nos outros. 

– Quando a minha mãe morreu gritavam: “Vai-se a mãe dos pobres”. 

Corpo miudinho e enxuto de carqueja, rijo como um castanheiro, dispensava falinhas mansas e não temia tempestades. 

– A minha vida, contada, faz tremer uma calçada. 



Em Vale Salgueiro, na Festa de Reis, um homem do povo é coroado na igreja e abençoado pelo padre. Vai de casa em casa, de ceptro na mão, acender a alegria e religar a união. Nesse dia, sem exemplo, por mais ralhetes no Facebook e reportagens moralistas na televisão, as crianças experimentam fumar. No resto do ano, provam a felicidade abundante 

– Eu gostava de dar saltos nos degraus para o quintal. 

das numerosas experiências que a vida no campo tem para dar: 

–  Deitavam palha para fazer estrume, eu dava saltos. 

O amor da matriarca da família era capaz de montar um Natal todos os dias:

– Fazia doces e castanhas assadas, todos sentados à lareira. Para nós era tudo, não sabia o que havia de fazer aos netos. 

A família Lemos era abastada em azeite, vinho, trigo e centeio. 

– O meu pai era o chefe. E tinha o lavrador que andava com os bois. 

A primeira tempestade foi a morte inesperada de Manuel Maria, tinha ela dois anos, e a irmã, Amparo, três meses: 

– O pai foi um erro muito grande dos médicos. Queriam mandá-lo para o Gerês, fazer uma cura ao fígado, mas foi um tumor cerebral que o vitimou. 

A mãe, Maria Cândida Borges, ficou com duas crianças nos braços. 

– A minha mãe era uma pessoa com visão. Sabia que o pai queria educar as filhas e ela fez tudo por isso. 

Alzira aprendeu com aquelas espantosas locomotivas de 1500 cavalos, montadas nas oficinas de Mirandela, a fazer caminho em frente,

 – Gostei sempre de estudar. Era boa aluna, melhor a Ciências. Matemática era o meu forte. Ainda hoje gosto mais do que as físico-químicas. 

sem desvios, sobre os carris de ferro da vontade sagrada do pai, da determinação firme da mãe e dos valores antigos da família: 

– Eu aceito, quando preciso das coisas não discuto. 

E assim, aos 12 anos, depois da escola primária em Mirandela, foi com a irmã para um colégio interno no Porto. 

– Não gostava de nada, nem da comida. As freiras eram muito chatas. 

O seu espírito adolescente sonhou pela primeira vez uma vida independente: 

– Eu fui sempre uma pessoa muito aberta e não gostava de estar ali fechada. 

O melhor eram as férias de Verão em casa de uma tia, cabelos ao vento na Praia de Leça, quando apareceram os primeiros surfistas. 

– Molhava os pés, gostava de andar para trás e para a frente à beira-mar. 

Do Colégio Nossa Senhora de Lourdes passou para o Carolina Michaelis, onde concluiu o antigo sétimo ano.  A maioria das raparigas eram mais velhas e levavam-na com elas quando iam ter com os namorados. 

– Eu não gostava nada daquela brincadeira. 

Foi a Dona Berta, da freguesia vizinha de Vale de Telhas, à época proprietária da Farmácia da Ponte, em frente ao rio, a abrir-lhe a porta da vocação profissional.

– Quando me apanhava, ela dizia assim: “Olha, tu vais para Farmácia, que depois eu vendo-te a minha”. 

A ideia sabia a mel no espírito de uma rapariga nascida para ser rainha de si própria, sem patrões, Estado ou sindicato. 

– Eu queria uma profissão livre. 

Fica explicado o título e provado o epitáfio, na voz da própria, em entrevista realizada na Páscoa do ano passado, estava ela com 96 anos afiados de sabedoria. 

– No que eu era melhor era a Matemática, mas não queria ser professora.

Alzira Lemos integrou a geração mítica das primeiras mulheres licenciadas em Farmácia.
 
– As professoras do liceu andam ali, não são uma profissão livre. O médico é uma profissão livre, o farmacêutico é uma profissão livre. 

Ingressou na Faculdade de Farmácia do Porto em 1940, com 18 anos. Conheceu a Celeste e a Ricardina, duas amigas para a vida. Foram irmãs inseparáveis. Guardava-as debaixo da sua asa protectora, sem nunca deixar de as espicaçar, directa ao assunto: 

– Ó mulher, fala! Passam-te todos à frente e tu és a melhor. 

​​
Ricardina, Alzira e Celeste, três farmacêuticas que eram como irmãs​

Acabou o curso em 1945, o ano de todo o século XX com melhores notícias para uma mulher livre. Só depois, na estação certa, à tabela, aceitou o pedido de casamento. 

– Como se namorava na altura? Namorava-se como sempre se namorou toda a vida, olha que pergunta! 

Por indicação de um professor de faculdade, mal terminou o curso teve emprego numa farmácia da Batalha. 

– Gostei muito de estar na Batalha, mas eu queria uma farmácia só minha. 

Regressou às raízes, porque a oportunidade de negócio apareceu em Mirandela. 

– Foi muito dinheiro, uma pipa de massa. Eu não era uma pessoa para me assustar. Fui ao banco. Levantei o dinheiro, sabia que o podia pagar. 

Tomou conta da Farmácia Bragança e montou um laboratório de análises clínicas. 

– Trabalhei muito.  

Ficava na farmácia de segunda a sábado, só com um empregado, a quem deixava os serviços nocturnos. Ela sempre foi mais de romper o dia. 

– Gostava mais da farmácia antiga, os nossos conhecimentos punham-se mais em prática. Fazia pomadas, xaropes. 


Alzira e o marido, Francisco, e os filhos, Manuel e Paula, no baptizado desta

Teve um filho e uma filha, foi feliz no matrimónio, mas enviuvou cedo. Continuou em frente, como as modernas locomotivas a diesel. Deixou dezenas de cartas de protesto contra a situação económica das farmácias no arquivo do Grémio Nacional das Farmácias:

– Há, na realidade, imperiosa razão de se olhar a situação da Farmácia de Oficina, pois a continuar assim, dentro de pouco tempo, as farmácias estão nas mãos de ajudantes. 

Reclamava muito, mas retirava sempre daí as devidas consequências. 

– Aproveito para comunicar a V.Exa. que me sinto com a melhor boa vontade de colaborar na defesa da classe. 

Primeiro prestou serviços ao Grémio, depois envolveu-se na ANF desde o primeiro dia. 

– Gostei muito daquela ideia. Então, não havia de defender o meu campo? 



Viveu e morreu directora-técnica. Há uns anos, entregou o balcão de atendimento e o livro de receitas ao neto Francisco, farmacêutico comunitário como ela foi sempre. 

– Eu tenho fórmulas muito boas. 

Consequente, não dava só o nome à placa da rua. Ia à farmácia todas as tardes, vigiava as contas. 

– Sou uma lutadora, não recebo as coisas de mão dada. Ia agora ficar em casa? 

Alzira Lemos era a líder histórica das farmácias de Trás-os-Montes e uma cidadã do mundo. Conheceu tudo o que há para ver neste planeta, nos congressos da Federação Internacional Farmacêutica: Holanda, Brasil, China, Canadá, Austrália... 

– Olha, Francisco, trabalhei muito, mas também passeei. 

Como era mandatório ter sido exercido, por uma farmacêutica livre.

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