Saltar para o conteúdo principal Saltar para o footer

A segunda vida de Odette

​​​​​​​​​​​​​​​​​​​Até final de Junho, entrada livre na exposição “Odette Ferreira - Construir Futuros”.

Texto de Sandra Costa • Foto de Miguel Ribeiro Fernandes e Pedro Loureiro

O casaco de fazenda verde com grandes botões dourados, logo à entrada, evoca a presença de Odette Ferreira. O corpo pequeno, quase frágil, a contrastar com o estilo seguro da mulher consciente do impacto que causava nos outros. É uma das peças «mais marcantes e emblemáticas » da exposição com que o Museu da Farmácia homenageia a farmacêutica, diz a curadora Paula Basso.

A história deste casaco prova o carácter corajoso, arrojado e destemido da farmacêutica e cientista. Odette Ferreira usou-o na sua célebre viagem a Paris em Setembro de 1985. Os bolsos fundos permitiram-lhe transportar discretamente tubos com sangue contaminado com o vírus da sida, pela primeira vez isolado em Portugal. Aconchegou-os ao corpo para manter os 37° necessários à estabilidade das amostras. A investigação que desenvolveu no Instituto Pasteur culminou na identificação de um novo tipo de vírus da sida, o VIH-2. Odette Ferreira colocou Portugal no mapa da investigação científica sobre o vírus que atemorizou o mundo nos anos 80.

A exposição “Odette Ferreira - Construir Futuros” apresenta pela primeira vez ao público o diário científico da investigadora. As páginas manuscritas revelam os passos da análise laboratorial que realizou no Instituto Pasteur, entre os dias 16 e 26 de Setembro. «O valor científico e afectivo é incalculável. Ali ela registou, dia-a-dia, o processo científico que levou à descoberta do VIH-2», nota o director do museu, João Neto.



A vida longa e preenchida de Odette Ferreira, falecida aos 93 anos, é desvendada nas suas várias facetas.

Está lá a cientista, a farmacêutica e a professora universitária. No diário; nos tubos rotulados com as estirpes das bactérias que deram origem ao doutoramento sobre infecções hospitalares; e no microscópio de fluorescência, seu instrumento de trabalho durante muitos anos na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa.

Está lá também a mulher. Nos objectos pessoais, como o relógio ou a coleira do cão e amigo Afonso; nas fotografias em formato digital; nos testemunhos em vídeo dos outros e nas citações que revelam a forma como olhava o mundo. «Avanço sempre, sem temer arriscar, menos ainda perder». Este ensinamento marcou para sempre quem com ela conviveu. Os visitantes da exposição, convidados a deixar no fim um comentário escrito, expressam o mesmo sentimento: “Não desistir”, “Continuar sempre”, “Ir mais longe”.

Está lá a figura pública, reconhecida no país e internacionalmente, nas muitas insígnias que recebeu ao longo da vida. Também está lá a activista dos direitos humanos. Entre 1993 e 2000, Odette Ferreira saiu muitas vezes do seu gabinete de presidente da Comissão Nacional de Luta Contra a Sida. Visitou toxicodependentes e prostitutas, alertando-os para a necessidade de trocarem seringas e usarem preservativo para se protegerem da doença. Insurgiu-se contra a «estupidez do medo». Não hesitou em abraçar e beijar seropositivos, mesmo quando foi ela própria ostracizada: chegaram a querer afastá-la do Ensino.

Esta fase de luta pela dignidade humana, quando combateu o contágio pelo vírus e os preconceitos, está patente nos primeiros cartazes informativos sobre o VIH, produzidos pela CNLCS, ou no primeiro kit utilizado nas farmácias para o Programa Troca de Seringas, a partir de 1993, que permitiu salvar milhares de vidas. Uma faca, um garfo, um chuveiro e medicamentos simbolizam o apoio recebido pelos portadores de VIH-sida sem apoio familiar, através do projecto Casa Amarela, que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa criou em 1989 e Odette Ferreira apoiou sem reservas.

«Era uma pessoa de afectos e sempre lutou contra os estigmas que a sociedade colocou nas pessoas infectadas pelo vírus», nota João Neto. A sua atitude contrastava com a da generalidade da sociedade portuguesa à época, desinformada e aterrorizada pelo medo de uma doença desconhecida.



A exposição permite aos visitantes sentir a marginalização a que eram sujeitos os doentes seropositivos. «Nem beijos, nem abraços, nem apertos de mão» e «Também se pode morrer de solidão» são frases desse tempo, recordadas por escrito ou em voz alta. «As pessoas tinham a ideia de que o vírus da sida se transmitia como se fosse a gripe. A professora explicou desde o início que isso era um erro e combateu veementemente a ideia de que os seropositivos não podiam ser tocados», recorda Paula Basso.

Odette Ferreira doou em vida o seu espólio ao Museu da Farmácia. Esta exposição, de resto, começou a ser programada com o seu conhecimento e colaboração. «Fico satisfeito se, ao perguntarmos a qualquer pessoa se sabe quem foi a professora e o que fez por todos nós, a resposta for sim», afirma João Neto, reconhecido.



O Presidente da República presidiu à cerimónia de inauguração da exposição, realizada no dia 21 de Fevereiro. No seu discurso, recordou «a mulher de coragem, com uma determinação que ia quase até à teimosia», e de uma «solidariedade sem limites», que «mesmo nos momentos mais solitários da sua investigação, estava a pensar, sentir e a trabalhar para os outros». Marcelo Rebelo de Sousa acredita que a sociedade portuguesa continua a beneficiar do seu exemplo e ensinamentos, aproveitando assim o «segundo ciclo da vida de Odette Ferreira».

 

Sobre o autor

Admin

uSkinned, the world’s number one provider of Umbraco CMS themes and starter kits.

Este site armazena cookies no seu computador. Esses cookies são usados para recolher informações como interage como o nosso site e permite-nos lembrar das suas preferências. Usamos essas informações para melhorar e personalizar a sua experiência de navegação. Para saber mais, consulte a nossa Política de Privacidade.