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A verdade em 15 minutos

​​​​​​​​Testes rápidos de VIH-sida e hepatites nas farmácias ajudam a combater o grande subdiagnóstico destas doenças.

Texto de Carina Machado • Foto de Mário Pereira

Maria João não esconde o nervosismo. «Se for positivo, posso ter filhos?». Os resultados dos testes ao vírus da sida (VIH) e às hepatites C e B (VHC e VHB) nas farmácias são rápidos. Porém, os 15 minutos que intervalam a picada no dedo e uma resposta põem à prova os nervos dos mais resistentes. Nessa eternidade, medos e preconceitos sobressaltam quem espera por um resultado.


A maioria dos interessados pede para despistar a infecção por VIH mas acaba por fazer também o teste das hepatites

O papel de Iolanda Ferreira e Ana Raquel Lourenço, farmacêuticas da Farmácia Cascais, em Cascais, «é desmistificar e informar correctamente os utentes». Esta é uma das 21 farmácias naquele concelho que estão qualificadas pela Ordem dos Farmacêuticos para a prestação deste serviço, sem necessidade de prescrição médica.

Maria João é o nome fictício de uma mulher de 42 anos, designer, divorciada, de momento a viver sozinha. Mostra interesse em partilhar o seu testemunho, desde que com confidencialidade garantida, no gabinete privado de consulta farmacêutica onde é realizado o teste.

«Em Agosto tive uma relação sexual desprotegida com um colega estrangeiro, numa reunião internacional da empresa. Foi um desvario, nunca abro excepções. O facto é que isso vem-me muitas vezes à cabeça. Sinto-me angustiada e insegura», relata a mulher. Veio à farmácia comprar um antigripal e deu de caras com um cartaz a anunciar o novo serviço. «Tenho medo, mas vou aproveitar a oportunidade para resolver de vez o assunto», relata.

Naqueles 15 minutos, as farmacêuticas explicam-lhe que a sida é hoje em dia uma doença crónica. Fica a saber que o vírus, quando controlado em tratamento, não se transmite, podendo mesmo os doentes, nessas circunstâncias, ter relações sexuais não protegidas, engravidar e amamentar sem restrições.

Na cabeça de Maria João só estava o fantasma da sida, mas fez também o teste de rastreio ao VHC. «Quando o propomos, as pessoas acabam sempre por realizar os dois, mas, curiosamente, nunca foi esse o catalisador da procura», comenta Ana Raquel. As hepatites, se não forem diagnosticadas atempadamente, podem obrigar ao transplante do fígado e até causar a morte. O custo da última geração de medicamentos é tão elevado que implicou uma negociação dura e um acordo de confidencialidade quanto ao preço entre o Estado e o laboratório produtor. A maior ironia é que, detectada a tempo, a infecção é relativamente fácil de curar. «As hepatites nunca estão na lembrança das pessoas. É da sida que têm medo», acrescenta a farmacêutica.


«Continuamos, hoje, a diagnosticar pessoas infectadas há dez anos», alerta o infecciologista Kamal Mansinho

Na realidade, ambas as doenças estão subdiagnosticadas em Portugal. A Direcção-Geral da Saúde estima que cerca de dez por cento das pessoas seropositivas desconheçam a sua condição, de acordo com o relatório de 2018 do Programa Nacional para a Infecção VIH/Sida e Tuberculose. «Continuamos, hoje, a diagnosticar pessoas cujos resultados das análises indicam que podem ter sido infectadas há dez anos», alerta o infecciologista Kamal Mansinho. Recebe com agrado todos os programas para aumentar o diagnóstico. «Os estudos mostram que a grande maioria dos doentes que chegaram muito tarde ao sistema já o haviam tocado de algum modo. Porém, nunca lhes foi oferecida a oportunidade de fazer um diagnóstico», expõe o director do Serviço de Infecciologia e Medicina Tropical do Hospital de Egas Moniz. O diagnóstico tardio, como é evidente, «aumenta o tempo de propagação na comunidade», recorda este especialista. Um indivíduo infectado é um agente de contágio, sobretudo num período de vida em que tenha múltiplos parceiros sexuais.


«Vejo esta medida com tão bons olhos como a troca de seringas», afirma o médico internista José Vera

Tudo indica que o subdiagnóstico seja ainda maior no caso das hepatites. «Há um subconhecimento de tudo e os doentes continuam a ser diagnosticados tardiamente, com custos pessoais e para o sistema», lamenta José Vera, médico internista do Centro Hospitalar Barreiro Montijo. Várias fontes indicam um volumoso subdiagnóstico. O estudo "O Impacto da Hepatite C em Portugal”, publicado em 2014 no Jornal Português de Gastrenterologia, refere que apenas 30 por cento dos doentes se encontram actualmente diagnosticados. A Universidade Católica estima que existam 89.200 portugueses infectados.

Para José Vera, «todos os esforços na identificação de novos casos são bem-vindos». O envolvimento das farmácias parece «óbvio» ao internista do Centro Hospitalar Barreiro Montijo. «Vejo esta medida com tão bons olhos como a troca de seringas», comenta, colocando ambas «ao mesmo nível e com o mesmo significado». É um entusiasta dos testes rápidos em farmácias mas aguarda que os resultados possam clarificar o impacto desta intervenção. «Há um estigma associado a estas doenças que poderá dificultar a procura. Não estamos a falar de um teste de diabetes ou colesterol», lembra o médico. Antes do volume, valoriza o facto de se estar a «facilitar o acesso a quem retira vantagem do teste, e isso não há que regatear, nem desmerecer».

Portugal subscreveu o objectivo da ONUSIDA de quebrar o ciclo de transmissões e erradicar as epidemias de VIH/sida e de hepatites virais até 2030. A implementação de testes rápidos de rastreio destas doenças, nas farmácias e laboratórios de análises clínicas, é considerada estratégica para o cumprimento dessa meta. «São parceiros fundamentais dos serviços de saúde, dado o seu carácter de proximidade e serem detentores da confiança dos cidadãos», justifica o despacho, publicado em Março, dos então secretários de Estado Fernando Araújo e Rosa Zorrinho.


«A evidência científica é clara quanto à importância da facilidade de acesso aos testes de diagnóstico», afirma o médico e deputado Ricardo Baptista Leite

«A evidência científica é clara quanto à importância da facilidade de acesso aos testes de diagnóstico», concorda o médico infecciologista Ricardo Baptista Leite, que é deputado do PSD. Na sua vida profissional, é coordenador científico de Saúde Pública do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica, que criou o primeiro modelo, a nível mundial, de avaliação do impacto real das políticas de saúde pública na eliminação do VHC.

Quando aplicada a Portugal, a sinalética vermelha do “Let’s End HepC” deixa poucas dúvidas: o nível de medidas implementadas é insuficiente. Ricardo Baptista Leite defende um maior aproveitamento da rede de farmácias, designadamente através da dispensa de medicamentos.

Quanto aos testes rápidos que estão a ser experimentados em Cascais, o médico e deputado considera decisivo «garantir o devido seguimento dos casos positivos, por profissionais de saúde capacitados para iniciar de imediato a terapêutica».

Na Farmácia Cascais, 15 minutos depois, o teste deu negativo. Maria João respira de alívio. A vida passa-lhe toda à frente: o que foi e o que poderia ter sido.

Se o resultado do teste tivesse sido reactivo, a designer estaria agora a debater com a farmacêutica o passo seguinte. Antes de mais, seria preciso acalmá-la. Ana Raquel e Iolanda receberam formação específica para gerir esse momento, de grande stress, da melhor forma possível. «Explicamos ao utente que não está perante um positivo definitivo, que é necessário confirmar o resultado. Depois, ajudamo-lo a enfrentar a nova realidade, mostrando as opções disponíveis sobre o que fazer, como e quando», exprime Iolanda Ferreira. A referenciação pela farmácia a um hospital, através da linha SNS 24, é o único momento em que a quebra de confidencialidade no processo está prevista, mas só acontece se o utente autorizar. «A escolha é sempre da pessoa. E nós estamos sempre cá para a ajudar», conclui a farmacêutica.

Maria João despede-se e vai à vida dela com um sorriso. Antes de sair, garante que a experiência não se vai repetir.

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