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Família entre Portugal e África

​​​​​​Só o irmão não seguiu os desígnios da Farmácia, que têm origem no pai e no avô.

Texto de Paulo Martins

​Foi mais com espírito de emigrante do que de colono que o avô de José António Aranda da Silva partiu para África, no início do século XX. Republicano e mação, arregaçou as mangas em território desconhecido – hoje talvez tivesse direito ao epíteto de empreendedor. Em Lourenço Marques e na ilha de Moçambique, a Farmácia Barbosa cedo se afirmou. Com o tempo chegaram os irmãos. E nasceu um laboratório de produção de medicamentos, bem como uma fábrica de ligaduras.

A biografia de Elísio Rainha da Silva, pai de José António, começa a escrever-se em Coimbra, onde nasceu. Estudante típico da cidade, frequenta o grupo neorrealista, onde preponderam João José Cochofel, Joaquim Namorado, Carlos de Oliveira e Fernando Namora. Priva com Veiga Simão, Almeida Santos e outras figuras ligadas à universidade. O percurso leva-o, inevitavelmente, à direcção da Académica de Coimbra. Campeão nacional de ténis de mesa pela “Briosa”, também a representa como futebolista. Não é adepto – muito menos filiado – de outro clube, originalidade que os filhos herdarão.

Em 1940, fixa residência em Moçambique. Casa, por procuração, com uma colega do curso de Farmácia, concluído no Porto. Em Lourenço Marques, é preso várias vezes, por se envolver em grupos que conspiram contra o regime. A páginas tantas, incompatibiliza-se com o pai e separam os negócios. Fariam as pazes posteriormente, já o avô de Aranda da Silva estava submerso em dívidas, sobretudo relacionadas com as fazendas de Bane e Inpamputo, onde criava 2.000 cabeças de gado. 

Por altura do 25 de Abril de 1974, Elísio detém duas empresas farmacêuticas e várias farmácias, dominando 40% do mercado de medicamentos da colónia. Em Junho desse ano, desaparece precocemente a mulher, investigadora no Instituto do Algodão, dinamizado por Aurélio Quintanilha. Viúvo e sozinho, com os filhos ausentes na Europa, aceita o convite do seu amigo Samora Machel, herói da independência e primeiro Presidente de Moçambique, para trabalhar no Ministério da Saúde. Uma vez adquirida a nacionalidade, será o primeiro director-geral dos Assuntos Farmacêuticos do novo país. Precisamente o cargo que o filho viria a desempenhar em Portugal em 1990.

«A intervenção do Estado no sector farmacêutico após a independência foi feita através da empresa do meu pai», recorda Aranda da Silva, referindo-se à inédita decisão de doar todos os bens ao Estado moçambicano, operação que teve, naturalmente, de contar com o aval dos filhos. Pelo caminho, ficaram os planos de conversão da Farmácia Barbosa de Lourenço Marques em Museu da Farmácia, que Samora Machel acarinhava. Não faltava espaço, porque o enorme edifício acolhia o laboratório farmacêutico, mas faltou dinheiro. Um incêndio acabaria por desferir o último golpe no projecto.

À excepção das farmácias abandonadas pelos donos no decurso do processo de descolonização, nenhuma foi nacionalizada. Elísio Rainha da Silva assegurou, assim, que o sector se manteria essencialmente privado. O vasto património entregue ao Estado era mais do que suficiente para regular o mercado.

Manuel Aranda da Silva, irmão do antigo bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, também se naturalizou moçambicano. Antigo dirigente associativo no ISCEF (hoje Instituto Superior de Economia e Gestão), que se exilou em Paris em vésperas da Revolução e só regressou a Portugal depois dela, viria entre 1980 e 1989 a exercer funções de ministro do Comércio de Moçambique. Quadro das Nações Unidas até à reforma, liderou intervenções humanitárias da organização em Angola e no Sudão.

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