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Mais perto do céu

​​​​​​Um passeio pela Serra da Estrela.

Texto de Sónia Balasteiro • Foto de Céu Guarda

«O que me fascina, enquanto ser humano, é que uma pessoa olha para esta paisagem e os olhos parece que descansam». Ainda hoje, cinco anos após a sua chegada a Seia, Nuno Augusto se surpreende com a vista na subida à Serra da Estrela. Sobre as montanhas e planícies, sobre as nuvens que, em certos momentos, parecem desembocar no mar.

Encontrámo-lo perto da hora do almoço, na Farmácia Sena, que ganhou o nome em homenagem ao dado pelos romanos a esta terra de queijo, pão e segredos eternamente guardados no coração de quem vive neste lugar árido e belo. «Seia chamava-se ‘Civitas Sena’», conta Nuno.​

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Recebeu-nos com um sorriso amável, levando-nos a uma das surpresas mais recentes da Estrela, logo a seguir à Aldeia da Serra, conhecida pelo pão tradicional. Nuno quer mostrar o Cabeço das Fragas, sala gastronómica aberta há poucos meses. A proximidade da anfitriã Ana Maria com Nuno, que conhece da farmácia, torna o repasto, onde se reinventam sabores locais, mais especial. A decoração cosy e uma enorme vitrina para as encostas que descem da cordilheira fazem o resto.

O objectivo é visitar o ponto mais alto de Portugal continental, a incontornável Torre, que soma sete aos 1.993 metros do cimo da serra. No caminho, pela Nacional 339, ainda não há neve, mas os meteorologistas a​nunciam-na para breve. Por esta altura, o Outono tomou conta da paisagem, vestindo-a de tons quentes,  vermelhos, laranjas.

Cruzamos o coração do Sabugueiro, aldeia de lojas de produtos tradicionais e de criação do cão Serra da Estrela. Continuamos, sempre a subir. De um lado da estrada, um espelho de água reflecte o céu e a imensa luz da tarde.

Chegamos à muralha, erguida para conter as águas da Lagoa Comprida, a maior da Serra da Estrela, a mais de 1.500 metros. «Abastece os concelhos de Seia e Gouveia», revela Nuno. 

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Apesar do Sol que decidiu abençoar a visita, a partir deste ponto o frio grita por um casaco. «O famoso canal filmado por um drone no cimo da serra vem ter aqui», conta o guia, descontraído. Nuno, hoje com 37 anos, aprendeu a amar esta paisagem, bem diferente da planície alentejana de Elvas onde cresceu até rumar a Coimbra para licenciar-se em Ciências Farmacêuticas. «Um alentejano à conquista da serra», ri ele.
 
Paramos num miradouro. No vale, o olhar detém-se num pastor e no seu rebanho de ovelhas, presenças habituais deste lugar, rico em pastagens desde tempos imemoriais. É afinal, reza a lenda, a um pastor que a Serra, outrora Montes Hermínios, deve o nome de Estrela: O pastor viu no horizonte uma estrela tão brilhante que decidiu segui-la, até a encontrar, precisamente, na montanha mais alta.

Continuamos para a Torre pela mesma estrada. Quase dois mil metros de altitude, e os termómetros a disparar… no sentido do zero. Vê-se duas pistas de esqui na encosta. «Gosto de vir para a serra na altura da neve», confidencia o guia. «E há uns canhões para manter a neve durante mais tempo».

Chegamos ao cume no final da tarde. As duas torres de controlo do espaço aéreo, da GNR, impõem-se com as suas abóbadas sobre a solidão do lugar.

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Logo na primeira loja da área comercial Torre 2000 onde se multiplicam os têxteis em lã e os produtos típicos da serra, somos recebidos por um sorriso caloroso. «Prove um bocadinho deste queijo», insiste Adelaide. Dirige-se ao farmacêutico: «Fez bem em vir cá acima, doutor, também é preciso sair da farmácia. Têm aqui a capela da Nossa Senhora do Ar, a padroeira da Força Aérea, para visitar. É muito, muito bonita».

Em Seia, espera-nos um chá para aconchegar a noite no Espaço Ego, antigo palacete com salas decoradas ao estilo clássico, cadeiras forradas, lustres e estuque nos tectos. 

A manhã seguinte amanhece chuvosa – o que significa neve na cordilheira. Começamos por um passeio no Parque Verde, onde está instalado o Centro de Interpretação da Serra da Estrela (CISE), referido nos guias Lonely Planet. É no CISE que descobrimos que a Serra da Estrela é um mundo de biodiversidade: há espécies que apenas existem aqui. 

Seia guarda outro segredo: o Museu do Pão, já engalanado para o Natal. É lá, depois de uma visita surpreendente por salas que revelam a importância desse bem precioso no contexto político e social português, que encontramos o Mundo Mágico dos Hermios. Numa aldeia lusitana, percebemos a sorte de encontrar uma maçaroca de milho rei. 

Despedimo-nos de Seia como Nuno a sente: surpreendidos. É bom estar mais perto do céu.

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