Saltar para o conteúdo principal Saltar para o footer

Maratonas ao postigo

​​​​​​​​​​Os utentes saem satisfeitos com a medicação e o aconselhamento para aliviar as dores.

Texto de Irina Fernandes • Foto de Miguel Ribeiro Fernandes


Farmácia Confiança – Bragança

O ​ar está abafado. A noite impõe-se quente à madrugada que se avizinha. Tiago, 22 anos, entra na Farmácia Confiança. Traz pulseira amarela no pulso, rosto pálido e corpo contorcido. «Fui às urgências. Tenho uma gastrenterite. Agravou- se esta manhã», explica ao balcão.

A trabalhar em farmácia desde 1980, é João Paulo Silva, de 52 anos, quem está de escala. Cabe-lhe a ele aliviar o sofrimento nocturno, madrugada fora. «Vai tomar Primperan e um probiótico para a diarreia. Não se preocupe, vai ficar bem».

Tiago Oliveira permite-se um fugaz sorriso. «Vou muito mais descansado para casa. Para pessoas que, como eu, estão doentes, é um alívio ter a farmácia a funcionar à noite para levar logo os medicamentos para casa. É uma questão essencial na vida das pessoas».

mrf20170929_MG_535500044.jpeg
Tiago Oliveira ainda vinha com a pulseira amarela do hospital. Saiu aliviado

Localizada na Avenida João da Cruz, uma das mais movimentadas ruas da cidade, a Farmácia Confiança integra uma rede de farmácias do distrito de Bragança que vai experimentar o novo Serviço Nacional de Assistência Farmacêutica (SAFE). Este projecto, desenvolvido pelo Ministério da Saúde e pela ANF, pretende aumentar o acesso a medicamentos urgentes durante o período nocturno, com a possibilidade de dispensas ao domicílio.

João Paulo tem 25 anos de experiência no atendimento nocturno e está ansioso para participar no projecto- piloto. «O SAFE vai trazer mais conforto ao utente. Este rapaz, por exemplo, estava em sofrimento. A meu ver, é o tipo de situação em que era importante nós podermos ir levar o medicamento a casa», refere o técnico de farmácia. A Farmácia Confiança está de serviço permanente de oito em oito dias. «A disponibilidade no período nocturno é fundamental. Sem uma farmácia de serviço, o utente sairia do hospital e, em vez de começar logo a tomar a medicação prescrita, teria de esperar até ao dia seguinte», expõe Maria José Genésio, farmacêutica substituta da directora-técnica.

mrf20170929_MG_512400010.jpeg
Maria José Genésio, farmacêutica, assegura o atendimento com dedicação

Faltam poucos minutos para as 22 horas. «Está na hora. Vou fechar a porta!», atira, em tom imperativo, João Paulo. O fecho é, no entanto, interrompido. Chega um homem de 40 anos, muito queixoso. O motivo? «Fiz uma lesão a praticar desporto», conta Carlos Baptista. Quer uma pomada analgésica e anti-inflamatória. Atrás do balcão, João Paulo gesticula para exemplificar a correcta aplicação do medicamento. «É sempre bom podermos ter informação especializada. A tendência natural é aplicar a pomada à nossa maneira, quase sempre errada», assume o utente, empresário do ramo imobiliário.

O Hospital Distrital de Bragança fica a dois quilómetros, mas muitos utentes aparecem sem passar pelas urgências. «O meu caso não é grave, mas estou com dores. Com a aplicação da pomada já vou passar melhor a noite», refere Carlos Baptista. Depois de efectuar mais seis atendimentos, João Paulo puxa, finalmente, as persianas para baixo e fecha a porta. São, agora, 22h55. No exterior, uma placa informativa relembra duas regras do estabelecimento: “Tocar à campainha só em situação de urgência. Multibanco fora de serviço”. 

Hoje só vesti calças por causa da vossa reportagem. Normalmente, visto calções. É mais confortável para estar aqui». Sem grande demora, o som da campainha faz-se ouvir. «Boa noite. Diga, se faz favor», solta João Paulo para a rua. Ouve-se uma voz feminina. «Desejo aspirinas Griponal, se faz favor».

João Paulo ouve o pedido e de imediato acelera o passo. «Bolas! Só tenho moedas», desabafa, enquanto conta o troco a dar à utente. Do postigo ao balcão de atendimento, da 'caixa' às prateleiras deslizantes, percorre metros e metros numa passada veloz, digna de pista de atletismo. Ou não fosse ele um… atleta. «Já sou maratonista. Só a partir da quinta é que se é considerado maratonista. E eu já fiz cinco», revela, orgulhoso. Nos dias de folga e nas horas livres dedica-se à corrida. Já é atleta há 17 anos, desde que deixou de fumar. «Normalmente, quem 'faz noite' descansa no dia seguinte. Eu aproveito para dar a minha corrida. Olhe, descanso a correr!», atira o técnico de farmácia, entre gargalhadas.

mrf20170929_MG_542400056.jpeg
João Paulo Silva passa as noites de serviço a ler e a correr de um lado para o outro

​Ainda a fechar o postigo, a campainha volta a tocar. «Desconfio que hoje vou ter uma noite terrível. Está muita gente a vir à farmácia». É sexta-feira e também por isso a procura dispara. É ainda dia de mercado municipal. «As pessoas das aldeias vêm à feira e aproveitam para vir ao médico e à farmácia». Nos outros dias não há tanto movimento. «Diria que fazemos uns oito a dez atendimentos entre a meia-noite e as oito da manhã», esclarece o técnico de farmácia. Nas horas a seguir ao jantar há um pico de serviço. «Das dez à meia-noite. Aí sim, temos 20 a 30 atendimentos».

Quando as noites ou madrugadas se fazem calmas, especialmente no Inverno, João Paulo finta o tempo com outra paixão: a leitura. Anda a ler “A Rapariga do Comboio”. «Este é um thriller policial, mas gosto especialmente de livros históricos». Dormir é raro. «Vou passando pelas brasas. Nunca durmo profundamente, isso não consigo».

Com ou sem atendimentos ao postigo, João Paulo nunca desacelera o passo. «Aqui há sempre que fazer». Nas pausas de leitura arruma medicamentos, verifica prazos de validade, deixa mensagens escritas à equipa que entrará de serviço na manhã seguinte. Corre muito. «De facto, aqui na farmácia também faço umas boas maratonas a andar de um lado para o outro. Admito que é cansativo, porque é a noite toda, mas faço-o com prazer». Quem corre por gosto não cansa, já dizia o ditado popular. E João Paulo já é um maratonista.​​​

Sobre o autor

Admin

uSkinned, the world’s number one provider of Umbraco CMS themes and starter kits.

Este site armazena cookies no seu computador. Esses cookies são usados para recolher informações como interage como o nosso site e permite-nos lembrar das suas preferências. Usamos essas informações para melhorar e personalizar a sua experiência de navegação. Para saber mais, consulte a nossa Política de Privacidade.