Saltar para o conteúdo principal Saltar para o footer

O menino Gigi

​​​​​Na infância, viveu dois anos ao cuidado de um família de farmacêutico.​

Texto de Sónia Balasteiro • Foto de Pedro Loureiro

Nas noites em que as crises de asma não o deixavam dormir, os desvelos da “mãe Margarida” redobravam. Com o menino “Gigi” ao colo – carinhosa alcunha dada pelo pai, João Soares – a matriarca da família Maldonado Freitas passava noites inteiras acordada, num vaivém constante pelo corredor da “casa da Praça”, nas Caldas da Rainha. Foram muitas as noites em branco. «[Mário Soares] viveu em casa da minha avó, num prédio muito grande. Ele era asmático juvenil e a minha avó passava quase a noite inteira, quase todas as noites, a passeá-lo no corredor… tinha imensos ataques de asma», descreve Custódio Freitas. 

Estava-se nos anos 30 do século XX, teria Mário Soares, o histórico chefe de Estado que faleceu a 7 de Janeiro, entre oito e dez anos. O pai, João Soares, deportado para os Açores pelo regime, pedira ao amigo Custódio Maldonado Freitas, farmacêutico a morar com a família nas Caldas da Rainha, personagem de vulto na luta revolucionária, que lhe acolhesse o filho. Ficou quase dois anos.

​«O Soares veio para cá devido a uma relação muito íntima, afectiva mesmo, e política do pai, o professor João Soares, grande pedagogo, distintíssimo professor dos Pupilos do Exército, com o meu avô. Tiveram um percurso político paralelo: o meu avô vem de uma estrutura feudo-aristocrática e o professor João Soares sai de uma estrutura eclesiástica para ir também para o processo maçónico e revolucionário – é aí que está a génese da Primeira República. O professor João Soares e o meu avô faziam intentonas», descreve, entusiasmado, o neto Custódio, a quem Soares tratava por “Tó”. «Como se fazia no PREC [Processo Revolucionário em Curso]. Eram idealistas…». 

​Fraterno, o farmacêutico Custódio não apenas acedeu ao pedido do amigo como tratou Mário, conhecido na família Freitas por “Gigi”, como um dos seus filhos. O mais velho, António, foi o pai do homem que hoje desfia as memórias do clã, Custódio, pai de Margarida Maldonado Freitas. «Mário Soares conviveu com a geração que me antecedeu: os meus tios e o meu pai. O meu pai era o mais velho», conta.

_MG_6107.jpg

Durante a estada nas Caldas da Rainha, Mário completa a instrução primária e faz o exame da quarta classe. Mas a sua formação vai muito além da escola. Conta Custódio: «As laterais da casa davam com as traseiras da Farmácia Freitas e ele ia ver as [fórmulas] galénicas do meu avô. O professor João Soares mandava os amigos – Álvaro Lapa, Jacobetty Rosa e outros – para o ensinar... Isto dá que ele começa a ter uma iluminação. O primeiro gajo que aparece é o Agostinho da Silva. Posteriormente, era Álvaro Cunhal. É uma formação com uma base muito grande, porque a acção democrática social era constituída por Maria Teresa Aboim Inglês, Gustavo Soromenho, Mário Sérgio, Gustavo Azevedo Gomes, António Sérgio, Câmara Pina, Manuel Mendes, que era a grande figura… Torna-se um sítio em que ele percebe que tem uma segunda família».

Nunca perdeu as ligações: «Até ao final dos anos 60, manteve uma relação contínua connosco. Chamava aos meus tios e ao meu pai “manos” e à minha avó “mãe Margarida”».

Mais tarde, continua o guardião da memória da família, «o pai do Soares entendeu, em conjunto com o meu avô, que era muito dinâmico nisso, que a colónia balnear de férias do Colégio Moderno [que João Soares fundou] deveria vir para a Foz do Arelho. No Colégio Moderno, 80%, 90% dos alunos eram das colónias. Angola, Moçambique, Guiné… Ao ter uma vivência da Foz do Arelho, numa fase evolutiva, quando chega àquela idade a seguir à adolescência, entra na dinâmica do contestatário».

Na juventude continuou a visitar as Caldas. Tinha lá um grande amigo, Manuel Duarte. «Era carpinteiro de mobília, um homem do Partido Comunista. Foi quando começou a adesão do  Soares às juventudes comunistas. Levou-o o Guilherme Cabreiro. Começaram a percorrer de bicicleta aqueles lugarzinhos da Foz do Arelho para fazer a chamada notificação, a divulgação do MFA (Movimento das Forças Armadas), do civismo. Quem controlava o PC era Piteira Santos, grande amigo do Soares, o António Barreto e o Figueiredo, o Francisco Ramos da Costa. Com Tito de Morais, cria a Acção Socialista Portuguesa. Veio para a Foz do Arelho porque o Soares o chamou. E a Foz torna-se um centro cultural giríssimo, com os amigos e companheiros do Soares».

Nesse tempo, era comum ouvir «David Mourão Ferreira, no Hotel do Facho [na Foz do Arelho, poiso por excelência da família Soares nas estadas na Foz], a dizer poesia. O Afonso Costa filho, o Francisco Ramos da Costa, o Humberto Lopes…».

Lugar de paragem obrigatória nas Caldas da Rainha nesses tempos foi o «Café Central, referência da oposição em Portugal. Vinham todos. Soares esteve preso no Aljube com o pai. Com o meu tio, com o Vasco Pereira de Almeida, com o Júlio Pomar, que faz depois o mural que está no Café Central… Tenho cartas do Pomar a dar os orçamentos».

Quando o “pai Freitas” morre, em 1964, Soares está exilado em França. «Escreve uma coisa lindíssima, chamada “Fogo Solto”. Fá-lo com o coração. E isso é muito difícil no Soares, porque ele era um homem muito racional, que escondia a sua vulnerabilidade».



Quando morreu o “mano António”, pai de Custódio, Soares conseguiu vir. «Achei-o muito emocionado. Estava no cemitério e foi invectivado por um jornalista para falar. Ele olhou para ele com olhar muito duro e disse: “Uma pessoa da família não fala”».

Outra memória que mostra a imensa ternura e proximidade com a família é a da morte da “mãe Margarida”, em 1986, aos 94 anos, que muito o desolou. «Pediu: “Por favor, não façam nada enquanto eu não chegar e não vir a mãe Margarida”, conta a neta que lhe herdou o nome, na pastelaria Machado, onde começou há horas esta viagem a uma história de família que é também parte da história de Portugal. Esta era a pastelaria preferida do antigo chefe de Estado. É onde se encontrava com os amigos, onde parava de cada vez que visitava as Caldas. «Veio cá na sua última candidatura às presidenciais. Vem para o Machado e pergunta por mim: “O Tó?” Tenho quase 71 anos, mas ele ainda me tratava por Tó». À sua filha, bisneta do farmacêutico Custódio, tratou sempre também «com uma ternura especial. Perguntava-me pelas pessoas que tinha conhecido cá, como estavam. E gostava muito de dar-me conselhos», conta a sempre sorridente Margarida Maldonado Freitas, que tomou conta da farmácia da família.

 _MG_6160.jpg

​Mário Soares nunca esqueceria a casa que o acolheu, as pevides da Foz que adorava e os amigos da juventude. Nem durante a Revolução dos Cravos, nem enquanto primeiro-ministro, nem tão-pouco depois, enquanto Presidente da República.

Sobre o autor

Admin

uSkinned, the world’s number one provider of Umbraco CMS themes and starter kits.

Este site armazena cookies no seu computador. Esses cookies são usados para recolher informações como interage como o nosso site e permite-nos lembrar das suas preferências. Usamos essas informações para melhorar e personalizar a sua experiência de navegação. Para saber mais, consulte a nossa Política de Privacidade.