O segredo de Viseu
Viseu é natureza, memória e mistério.
Texto de Vera Pimenta • Foto de Ricardo Castelo

Envolta num nevoeiro místico, a Sé convida a uma viagem ao imaginário viseense
Do velho miradouro da Via Sacra, a Sé de Viseu ergue-se envolta no místico nevoeiro de uma manhã invernosa. Sob a chuva miudinha, a paisagem convida a viajar pelo imaginário viseense, pisando as mesmas ruas que até hoje guardam alguns dos segredos mais enigmáticos da região.
A primeira pista surge a Norte, junto do largo que nos animados dias de Verão acolhe a famosa Feira de São Mateus. Vista de cima, é impossível ignorar a imponente muralha octogonal de terra batida que abraça 32 hectares da cidade.
A Cava de Viriato é um monumento sem precedentes na Península Ibérica. Originalmente composta por oito taludes de terra, cada um com 250 metros de comprimento e quatro metros de largura, a antiga Cerca da Vala era rodeada por um fosso de água, do qual sobram ainda alguns vestígios.
«Este é um dos maiores mistérios da história e arqueologia portuguesas». A arqueóloga Fátima Costa, responsável pela empresa de turismo temático Neverending, já se habituou a aguçar a curiosidade dos visitantes, deixando margem para a interpretação.
De acampamento romano a construção feita pelos árabes, muitas são as teorias que a investigação histórica e arqueológica tem trazido ao de cima. Considerada monumento nacional em 1910, a sua origem e utilidade permanecem, até hoje, desconhecidas.
Enquanto a busca por certezas continua, o visitante é convidado a dar largas à imaginação. A começar pela origem da sua denominação, datada de 1940, altura em que aí foi edificada uma estátua em homenagem a Viriato.
Este que vês, pastor já foi de gado,
Viriato sabemos que se chama,
Destro na lança mais que no cajado:
Injuriada tem de Roma a fama
Vencedor invencibil, afamado;
Não tem co'ele, não, nem ter puderam
O primor que com Pirro já tiveram.
(“Os Lusíadas”, canto VIII, estância 6)
No poema épico de Camões, como na memória do povo português, Viriato é o mítico guerreiro lusitano que, no século II a. C., lutou contra a tentativa de conquista por parte dos romanos. «Mas não houve só um», desvenda Fátima. Além do lendário herói, viriatos eram também todos os líderes das tribos da Lusitânia, assim baptizados devido ao uso de uma víria no braço, a simbolizar a sua força.
Embora pouco se saiba sobre o local de nascimento ou as terras que pisou, Viriato haveria de ficar eternamente associado a Viseu. «É uma associação mais lendária do que factual», explica o farmacêutico Augusto Meneses. Segundo Fátima Costa, este foi o herói escolhido para representar um povo orgulhoso das suas raízes, que não baixa os braços perante as adversidades.
Valente, vigilante e corajoso; defensor da sua tribo, mas sempre pronto a dar as boas-vindas a visitas amigáveis. A sua lealdade e simpatia são dois dos motivos que tornam o cão da Serra da Estrela num dos mais acarinhados símbolos de Viseu.
A serra que lhe deu o nome, conhecida na altura por Montes Hermínios, guarda as memórias dos tempos em que era sua responsabilidade guardar rebanhos. Com o passar dos anos, como a própria cidade, adaptou-se. Hoje é um dos mais procurados animais de companhia da região.
No canil Domus Stella, o latido alerta e curioso destes viseenses de quatro patas é inconfundível. De cauda em gancho a abanar, como quem sorri ao abrir a porta de casa a um conhecido, a matilha permanece unida e tranquila, à espera da próxima oportunidade de ver afagados os seus macios pêlos de cores e tamanhos distintos.
Desde 2016 que Ary Abreu fez sua a missão de proteger a espécie. Especializado na criação de cães de pêlo comprido, o veterinário conta como a variação de pêlo curto esteve em risco de extinção. Graças ao esforço de alguns criadores beirões, tem vindo a ser recuperada aos poucos, garantindo assim a sua preservação.
Habituados ao clima da montanha, os Serra da Estrela têm fama de ser resistentes e tendencialmente saudáveis. Muito ligados ao dono, o seu porte, à primeira vista intimidante, esconde a doçura de um animal pronto a ser acolhido. «É um cão perfeitamente habituado a viver em família, com crianças, e é capaz de diferenciar as pessoas estranhas com melhores e piores intenções», explica o dono do Domus Stella.

O farmacêutico Augusto Meneses é apaixonado pelos Serra da Estrela: «São cães com uma nobreza quase rude, uma presença forte, mas calma»
O conterrâneo Augusto Meneses confessa-se particularmente fã desta raça autóctone. «São cães com uma nobreza quase rude, uma presença forte, mas calma». Esse carácter, a lembrar a essência do povo de Viseu, convenceu-o a adoptar a fiel companheira de aventuras, Naomi.
«Viseu vive muito da produção característica das suas serras e o cão da Serra da Estrela representa bem isso», conta o farmacêutico, de 48 anos.


A Sé ou Catedral de Viseu começou a ser construída no reinado de D. Afonso Henriques
Ladeado pelas mais conhecidas montanhas da Beira Alta, o centro histórico da cidade conta parte considerável da sua história. Entre as bonitas ruas de casas altas e antigas, a Sé espreita a cada esquina. Na Catedral, o espantoso claustro renascentista obriga à contemplação demorada do mais ínfimo detalhe. Mandado construir por D. Miguel da Silva, bispo de Viseu entre 1526 e 1547 e singular impulsionador da região, a obra destaca-se como primeiro exemplar deste movimento artístico em Portugal.

D. Duarte, em cujo reinado os navegadores portugueses venceram o Cabo Bojador, nasceu em Viseu em 31 de Outubro de 1391
O centro histórico é a delícia dos turistas. De dia, é um centro comercial ao ar livre, com muitas lojas tradicionais. À noite, bebe-se vinho do Dão nos bares e esplanadasNuma terra recheada de surpresas, à mesa partilham-se histórias embaladas por pratos que aquecem o corpo e a alma. Na Pensão Rossio Parque, um chef viseense, regressado há uns anos da azáfama parisiense, serve refeições que lembram os grandes jantares em família.

O delicioso arroz de míscaros é um prato típico da região
O arroz de míscaros com entrecosto é a sugestão de Augusto Meneses para quem queira aventurar-se a mergulhar nas raízes de Viseu. Os curiosos cogumelos silvestres característicos dos bosques da região prometem ficar na memória de quem os prove.
A dois passos da zona histórica, o Parque do Fontelo pinta a paisagem de verde. E deixa adivinhar porque é que os guias turísticos do século passado já apelidavam Viseu de “cidade jardim”. Os espaços verdes e as excelentes vias de acesso são duas das principais razões que lhe valeram já os títulos de cidade com mais qualidade de vida e de melhor cidade para ser feliz.
Ao seu lado, o Solar do Vinho do Dão tem quase um milénio de contos por desvendar, como o grandioso jardim renascentista, encomendado por D. Miguel da Silva, e vestígio dos tempos em que o edifício do século XIV foi paço episcopal. Hoje sede da Comissão Vitivinícola Regional do Dão, alberga uma equipa empenhada em promover os vinhos da Região Demarcada do Dão. E é o ponto de partida para a imperdível rota dos vinhos.

A viver em Viseu desde os três anos, Augusto Meneses conhece cada detalhe da cidade, da História ao vinho
A viver em Viseu desde os três anos, Augusto Meneses conhece a terra como a palma da mão. «A nossa ligação com o vinho é umbilical», revela. Os solos graníticos, protegidos pelas montanhas contra massas húmidas e ventos fortes, são um convite da Natureza à produção de alguns dos vinhos mais premiados do país. «Temos características únicas, que tornam este produto inimitável e muito apreciado».
Com o pôr-do-sol a rasgar o céu de tons alaranjados, a viagem pelos mistérios de Viseu só está completa ao descobrir o que se esconde para lá dos muros de pedra, das árvores e giestas que enfeitam os lados das estradas mais rurais do concelho.

A Quinta do Perdigão produz alguns dos vinhos mais premiados da região
No caminho de terra batida que entra pela Quinta do Perdigão, há fileiras de videiras até perder de vista. O silêncio da terra só se deixa interromper pelo chilrear dos pássaros e o miar longínquo dos gatos vadios. Ao fundo, o latido calmo de um Serra da Estrela de pêlo raiado anuncia a chegada de visitas. Um ritual habitual desde que a quinta passou a fazer parte da rota dos vinhos do Dão.
Há 23 anos que José Perdigão se dedica à produção de vinho, na calmaria de Pindelo de Silgueiros. «Aqui tudo cresce muito devagarinho, como um bonsai», descreve o arquitecto. «O que torna os aromas muito mais expressivos e cheios de personalidade».
Do solo até à garrafa, a corrida de estafetas é composta por uma equipa com vontade de vencer. «A Natureza é riquíssima», comenta. «Depois o factor humano é que cria a excelência a partir do bom». Na plantação de grande densidade, as plantas, bem como os colaboradores, comunicam entre si todos os dias, garantindo a qualidade do produto final.
O produtor de 64 anos garante que fazer um bom vinho é uma arte. E que a verdadeira adega começa numa pequena caixa carregada de uvas, prontas a provar. A escolha é feita à noite, às cegas. «Assim certificamo-nos de que escolhemos a melhor uva e não a mais bonita». Sem pressas, quase em segredo, na pequena adega camuflada entre a vinha, engarrafa-se o milagre da Natureza do Dão em todo o seu esplendor.
Aos aclamados vinhos viseenses, juntam-se rótulos artísticos assinados pela esposa, a artista plástica Vanessa Chrystie. Desde pormenores dos seus quadros a obras em homenagem à Natureza, a cada ano é em família que se decide os temas que melhor combinam com os vinhos – e com a vida.
Em Viseu, os beirões e elegantes sabores que embalam os sentidos fazem esquecer a correria dos dias. Envolta em mistério, a memória do passado ganha vida através da cultura, do património e das pessoas. Lá de baixo, a olhar o verde grandioso das serras, o tempo parece parar. Talvez seja esse o maior segredo da melhor cidade para se ser feliz.