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O SNS desapareceu da aldeia

​​​​​​​​​Em 2012, no auge da crise económica, o acesso à saúde deixou de fazer-se na aldeia e a população passou a ter de deslocar-se a Peso da Régua.

Texto de Sandra Costa • Foto de Pedro Martins


Farmácia Loureiro (2000-2012) - Loureiro, Peso da Régua

Os 1.300 habitantes de Loureiro e alguns das aldeias vizinhas iam à farmácia fazer testes ao colesterol e à diabetes, levar injecções ou vacinas, tratar feridas ou pôr gotas nos olhos. O serviço farmacêutico ia muito além da dispensa de medicamentos. As pessoas passavam muitas vezes só para esclarecer dúvidas e receber aconselhamento. «Éramos uma família. Havia tempo para conversar com as pessoas, aconselhá-las e prestar-lhes os cuidados de que precisavam para terem uma vida com saúde», recorda a antiga directora-técnica, Amélia Rodrigues. 

Dulce Maria dos Anjos, moradora de Loureiro, é diabética. Era a farmacêutica quem lhe administrava a insulina. Quando a farmácia fechou, e como tinha «medo das agulhas», durante mais de um mês deslocava-se diariamente ao posto médico da Régua, até ganhar coragem para injectar-se sozinha. «Era muito boa pessoa, sempre prestável. Se a gente não tivesse dinheiro para pagar a medicação, ela vendia-nos às prestações».


Amélia Rodrigues foi directora-técnica da Farmácia Loureiro durante 12 anos

Em Janeiro de 2012 encerrou o centro de saúde. Foi «a machadada final», nas palavras de Amélia Rodrigues. A Farmácia Loureiro, que já se debatia com graves dificuldades económicas, fechou as portas para sempre quatro meses depois.

O SNS desapareceu abruptamente da aldeia. Para ter acesso a médicos e a medicamentos, a população tem agora de deslocar-se a Peso da Régua. Sete quilómetros e meio, uma hora e meia a pé. «Eu vou de carro, porque tenho carro, senão tinha de ir no autocarro. Estamos muito isolados», lamenta Joaquim Rodrigues, 72 anos, proprietário do café Central, que é também dono de um táxi. Ele e a irmã, Maria Helena, eram clientes habituais da Farmácia Loureiro. «Íamos lá comprar medicamentos, medir a tensão, tirar sangue ou levar injecções». «Ali fazia-se tudo. Agora, para tomarmos uma injecção temos de ir à Régua», indigna-se outro morador, Manuel Cardoso Pinto, conhecido por Galochas.

Maria Helena e o irmão, Joaquim Rodrigues, eram clientes habituais da Farmácia Loureiro

As dificuldades de deslocação levam muitos idosos a descurar a sua saúde. O Centro Social e Paroquial S. Pedro de Loureiro procura evitar o pior. Uma funcionária desloca-se diariamente à Régua para marcar consultas e trazer medicação. «Mas os utentes acabam por não usufruir, pois não indo eles directamente à farmácia há certas coisas que poderiam fazer e não fazem», diz Isabel Taveira, há dez anos directora-técnica da instituição.


«A farmácia faz muita falta e o centro de saúde também», diz a assistente social Isabel Taveira

A pedido da Junta de Freguesia de Loureiro, a Farmácia Moderna, de Peso da Régua, vai à freguesia duas manhãs por semana. «Minimiza os problemas, mas não os resolve», diz José Mário, actual tesoureiro, que faz parte da junta de freguesia há mais de 20 anos. Falta a proximidade que existia antes, que permite criar relação e gerar confiança. «Antes, as pessoas iam à farmácia fazer o controlo de rotina e aconselhar-se quando tinham um determinado sintoma. Hoje, como sair da freguesia é​ um transtorno enorme, os idosos deixam arrastar os problemas de saúde até quase não poderem mais», denuncia aquela assistente social. A consequência é o aumento dos riscos de saúde, sobretudo nas pessoas de idade. «A farmácia faz muita falta e o centro de saúde também. Estão a arrastar tudo para os meios urbanos e as freguesias ficam completamente desprovidas de recursos. É muito grave, sobretudo tendo em conta a crescente taxa de envelhecimento». 
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José Mário fez parte do executivo da junta de freguesia que trouxe a Farmácia Loureiro para a aldeia​

A Farmácia Loureiro contava com uma equipa de quatro pessoas «bem formadas, que prestavam um óptimo aconselhamento à população », garante a antiga proprietária e directora-técnica, Amélia Rodrigues. Entregava medicamentos ao domicílio e prestava pequenos cuidados de saúde a quem tinha dificuldades de locomoção. Organizava actividades como peddy-papers, acções de recolha de medicamentos para reciclagem e caminhadas contra a obesidade. Tinha uma coluna informativa no jornal local. 

Tudo corria bem. Não passava pela cabeça de Amélia Rodrigues que pudesse correr mal. Mas correu. O primeiro sinal aconteceu em 2005, quando ouviu anunciar a intenção de vender medicamentos não sujeitos a receita médica em parafarmácias. Teve receio. Seguiram-se as sucessivas alterações legislativas ao negócio farmacêutico: a liberalização da propriedade, a obrigatoriedade de alargamento dos horários de funcionamento, as baixas de preços de medicamentos e os cortes nas margens fixadas pelo Estado. «A margem de lucro era inferior aos custos fixos da farmácia. Não era má gestão minha. Simplesmente, a cada dia que eu abria a farmácia tinha prejuízo», relata Amélia Rodrigues. A farmacêutica lamenta que as medidas de austeridade não tenham tido em conta o impacto nas microempresas como a dela. «Entre 2005 e 2010 houve seis reduções obrigatórias nos preços dos medicamentos. O impacto foi brutal para a capacidade financeira de uma pequena farmácia do Interior, como a minha». ​

 

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