Saltar para o conteúdo principal Saltar para o footer

O Verão de todas as incertezas

​​​​​​A quebra no turismo pode ameaçar a sustentabilidade da farmácia. Mas agora é tempo de cuidar de quem precisa.

Texto de Sandra Costa

​​Farmácia Oceano (Ribamar)

A aldeia de Ribamar, a três quilómetros da Ericeira e meia hora de Lisboa, é conhecida pelas praias e pela gastronomia. No Verão, o turismo anima a pequena estância balnear onde moram menos de 2000 pessoas, sobretudo idosos. A dois meses da abertura da época balnear, não se sabe ainda que Verão será este. Em tempos de incerteza, vive-se o presente. É assim também na Farmácia Oceano, a única da freguesia de Santo Isidoro, no concelho de Mafra. 

As vendas de Verão representam uma parte significativa do negócio da farmácia. «É quando temos mais movimento e trabalho», confirma o farmacêutico António Geraldo. O filho da directora-técnica, Miquelina Geraldo, sabe que o prolongamento da pandemia do COVID-19 pode ter um impacto sério no negócio da farmácia. Mas prefere centrar-se no presente e, para já, não falta trabalho. Além dos utentes habituais, sobretudo idosos, a farmácia está a servir muitas pessoas que têm na aldeia uma segunda casa e ali escolheram passar a quarentena. 



A Farmácia Oceano continua a atender de porta aberta. As placas de acrílico protegem a equipa, os utentes aguardam na rua a sua vez. Entre cada atendimento desinfectam-se mãos e balcões. A equipa é pequena, não é possível dividirem-se por turnos. «Somos quatro pessoas, e outra a tempo parcial. Continuamos todos, correndo o risco de ter de fechar a farmácia, caso um seja infectado». Mantêm-se firmes porque, como diz António, «é importante manter este serviço à comunidade». Tem havido muita procura por parte de pessoas com problemas dentários, agora sem consultas, e problemas nervosos, motivados pelo medo. Quando pode, a farmácia ajuda se não consegue resolver encaminha para o centro de saúde da Ericeira- A extensão de saúde de Santo Isidoro encerrou.   

Já passaram por várias fases. Logo após os primeiros casos de COVID-19 em Portugal foi a «corrida desenfreada a alguns produtos» como paracetamol, ibuprofeno, bombas respiratórias ou produtos para a diabetes. «Alguns doentes crónicos compraram medicação para seis meses ou um ano», conta António. A farmácia chegou a ter falta de alguns medicamentos e mantém-se a dificuldade de encontrar materiais de protecção individual. O farmacêutico queixa-se dos «preços inflacionados» apresentados pelos armazenistas para as máscaras, álcool gel e luvas. 

Muitas pessoas optam por fazer as encomendas por telefone e e-mail. A Farmácia Oceano prepara-se para aderir às entregas ao domicílio negociada pela Associação Nacional das​ Farmácias (ANF) e os CTT Expresso. O farmacêutico considera «uma excelente iniciativa para que as pessoas possam continuar a fazer a medicação habitual sem saírem de casa, seguindo as recomendações da Direcção-Geral da Saúde». A par, mantém as entregas domiciliárias gratuitas aos clientes habituais, sobretudo idosos que não querem ou não podem deslocar-se à farmácia. Alguns lares passaram a preferir encomendar pelo telefone e receber ao domicílio, para minimizar os riscos para os utentes. 



Leonardo Oliveira é proprietário de uma casa de repouso em Ribamar. Da equipa de sete pessoas é o único que sai das instalações, uma vez por semana, para comprar alimentos e medicamentos. Os restantes não vão a casa desde a segunda semana de Março. Quando regressa toma banho antes de se juntar aos utentes. «É um esforço enorme, mas resolvemos não correr riscos. A maioria dos 18 utentes tem doenças crónicas». Leonardo combina ao telefone com António ou Miquelina a melhor hora para pegar os medicamentos. «Eles sabem a minha situação e facilitam-me tudo. É uma equipa fantástica». De uma vez que não conseguiu insulina, António falou com outro cliente e conseguiu «uma caixa». 



Na aldeia conhecem-se todos. Áurea Rendas é cliente da Farmácia Oceano desde que abriu, há mais de 20 anos. Há cinco semanas que a antiga cozinheira e o marido, pedreiro, vêem a rua da varanda. Tomam medicação todos os dias para a asma, problemas respiratórios, hipertensão. Não precisam da farmácia para entregar em casa. O filho mais novo, pintor, deixou o trabalho para tomar conta dos pais. Áurea tem medo, mas sente-se protegida. «Sou uma pessoa positiva, tento dar força ao meu marido: O que importa é conseguirmos ultrapassar isto tudo sem adoecermos. E ele concorda». Sente-se grata. À farmácia também. «Só tenho a agradecer. São muito boas pessoas. Já tive momentos muito ruins na minha vida, não tinha como pagar os medicamentos e eles ajudavam-me, ia pagando como podia». Hoje, como sempre, é nos momentos difíceis que percebemos com quem contamos. 

Sobre o autor

Admin

uSkinned, the world’s number one provider of Umbraco CMS themes and starter kits.

Este site armazena cookies no seu computador. Esses cookies são usados para recolher informações como interage como o nosso site e permite-nos lembrar das suas preferências. Usamos essas informações para melhorar e personalizar a sua experiência de navegação. Para saber mais, consulte a nossa Política de Privacidade.