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Pai Herói

​João Almiro é o melhor português vivo. Na Casa das Andorinhas, abriga quarenta pessoas com vidas marcadas pela droga, a prostituição e o crime.​

Texto de Filipe Mendonça • Foto de Júlio Lobo Pimentel

​A despesa mensal da Casa das Andorinhas ronda 10.000 euros

Es​tá quase na hora do almoço. Na Casa das Andorinhas, horas são horas. Até às 8h da manhã toda a gente tem de estar de pequeno-almoço tomado, o almoço é ao meio-dia e meia, janta-se pontualmente às 19h. Regras são regras.

«No início, estranhei estar no meio de tantas pessoas com problemas socioeconómicos e psiquiátricos», conta “Rafael” (nome fictício), enquanto acompanha, nas escadas, a subida de João Almiro na cadeira automática. 

– Doutor, vou só comer qualquer coisa. 

–  Vai. Vai... 

Rafael é uma andorinha. Já não vive lá em casa. Mas, quando a fome aperta, a porta continua aberta. «Sabe como funcionam as andorinhas, não sabe? Elas vão e vêm. Quando estão preparadas voam, mas depois voltam. Este é uma andorinha. Encontrou uma miúda e voou». A explicação de João Almiro ajuda a perceber a inscrição na varanda que dá para a rua principal: «Andorinhas». Foi assim que o farmacêutico baptizou a casa de família, onde agora vive com cerca de quarenta pessoas. O número varia consoante os voos, mas já por lá passaram centenas. Eram alcoólicos, ladrões, prostitutas, dementes, criminosos a aguardar julgamento, outros em cumprimento de pena suspensa, encaminhados pelos tribunais. 

«Gente como nós», enfatiza o dono da casa, enquanto espera pelo almoço. No quarto, tem um armário dedicado aos processos judiciais dos seus filhos do coração. Faz centenas de quilómetros para ir acompanhá-los ao tribunal, gasta fortunas com advogados, não os quer entregues a defensores oficiosos. Visita-os nas prisões. 

 

«Vamos comer», a vontade de João Almiro é uma ordem. Entram no refeitório, um a um, em silêncio, porque o «doutor ensinou que a hora da refeição é sagrada». Hoje são 21 andorinhas ao almoço. Dezoito homens e três mulheres. Marina e Elisabete trataram da sopa de alface e da carne estufada com esparguete. São quatro mesas. O farmacêutico senta-se à cabeceira da mais central. 

«A última vez que fui ao supermercado, tive de esperar pela reforma para passar o cheque, mas há comida na mesa. Não lhes vais faltar o pão», desabafa, enquanto dá cor aos lábios com um tinto da região. Aqui não há luxo. Pratos e copos de inox. Sustentar a casa, só a casa, custa cerca de cinco mil euros por mês. Falta o resto. Com os medicamentos para todos, a despesa mensal atinge perto de 10 mil euros. «O dinheiro que ganho na farmácia não chega. Mas, enquanto for vivo, vou continuar». 

A conversa fez arrastar o almoço. Quase uma hora depois, o chefe da mesa solta a frase mágica: «Podem levantar-se». Levantam-se todos à voz do “doutor”. Ninguém ousa fazê-lo antes. Quem quiser interromper a refeição tem de pedir licença e explicar porquê.

No pátio, Marina ajuda a estender a roupa. «Cada peça tem um número, para sabermos de quem é». No salão, Paulinho vagueia junto à mesa de bilhar, como quem encontra um mundo de bolas coloridas. «Venho cá comer sempre. Já não moro cá, mas o doutor disse para eu vir sempre que quiser. Ele ajuda-me. Sempre que preciso de ir a Tondela, ao hospital, o doutor pede a alguém que me leve. Quando é preciso medicamentos, o doutor tem.» É assim que Paulinho resume o amor que sente. 

Está na hora do café. «Hoje é no Salinas, doutor?», pergunta Marina. «É. Hoje é no Salinas», responde Almiro. À terça-feira, o café é na Pastelaria Salinas. À quinta e ao sábado, também. Segundas, quartas e sextas, a bica, cheia e com dois pacotes de açúcar, é nos bombeiros. Ao domingo, vão todos à esplanada do Parque. «Foi a maneira que ele arranjou para dar dinheiro a ganhar a toda a gente», explica a senhora do bar dos bombeiros. 

Da casa dos Andorinhas ao Salinas são pouco mais de 200 metros. Almiro leva o carro, Marina vai com ele, os outros seguem a pé. A mulher que o acompanha vive em sobressalto. Marina tem medo do fim, apesar da morte não assustar o homem que a criou. «Quem me mandou para aqui, que resolva isto no dia em que eu cá não estiver. Eu sou só um instrumento», afirma João Almiro, um homem cheio de fé. «Quem pinta não é o pincel, é o artista. Eu sou só o pincel. Estou aqui até durar e são eles que fazem com que eu não fique à espera do fim. Para me levantar preciso deles, para me vestir preciso deles. Sou eu quem precisa deles».

Oito quartos, quatro casas de banho, três salas, uma cozinha e o refeitório. O ninho parece sempre pequeno. Não há uma divisão que não esteja com vida dentro. Que o diga aquela mulher ali, aninhada ao canto do pátio, vestida de rosa. Ai, se o mundo soubesse. Fica só entre nós. Maria venceu a mulher da vida e refaz-se mulher a cada dia. A maior alegria de João Almiro é ver pessoas refazerem-se, renascer, ganharem asas e voarem.​

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