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«Tenho 64 anos, mas sinto-me com 40 e tal»

​José Eduardo Moniz anuncia que vai fazer muitas coisas.​

Texto de Maria Jorge Costa • Foto de Pedro Loureiro

​Revista Farmácia Portuguesa (RFP): José Eduardo Moniz é o açoriano que agarrou Portugal à televisão.
José Eduardo Moniz (JEM): Para mim é um privilégio poder ser encarado dessa forma. Os portugueses têm uma grande paixão por televisão e futebol. Conseguir que milhões de pessoas se prendam a um ecrã é um desafio tremendo, que implica muito trabalho e criatividade. Quando era miúdo sonhava muito para além dos limites geográficos da ilha. E o que estava para além do horizonte era o que me motivava: o continente e os Estados Unidos, como à maioria dos açorianos. Havia outra coisa que me atraía muito, que era o jornalismo. Sempre quis ser jornalista.

 
RFP: Desde «sempre», foi a partir de que idade?
JEM: Desde os 13 ou 14 anos. Vivi deslumbrado com a televisão e com o que ela significava de abertura ao mundo, de facilidade de nos pôr em contacto com o mundo, de nos pôr à mão de semear tudo o que era atraente. Representando a televisão esse factor de atracção tão grande, entrar para o mundo da televisão, para mim, significava mergulhar no desconhecido que valia a pena. E quando surgiu a oportunidade, agarrei-a.

 
RFP: Como surgiu a oportunidade?
JEM: Em 1977, fui convidado para ir para a RTP como chefe adjunto do Departamento de Actualidades. Tive a sorte, ou a falta dela, de o director nunca ter aparecido. Portanto, eu tive de assumir aquilo, sem saber nada de televisão. O que é certo é que me fui «desenrascando». Era jornalista no Diário Popular.

 
RFP: Não dominava o jornalismo de televisão.
JEM: Não. Vejo a relação com a televisão como a relação entre um homem e uma mulher, é um jogo de sedução. E a relação com o espectador é a mesma coisa. Isto é, temos de perceber a cabeça do espectador antes de lhe dar seja o que for. E quem não tiver esse tipo de raciocínio não vai a lado nenhum, porque programar não é uma ciência exacta. Temos tanta gente a ver televisão – e gente tão diferente, que precisamos de encontrar denominadores comuns. Temos de transportar tudo o que aprendemos na vida, na literatura, no teatro, no cinema. E temos de encontrar as fórmulas para que o espectador se alie a nós. Tem de ser um aliado nosso, mesmo quando não gosta de nós.  Tem  de  considerar  que  somos imprescindíveis. Por isso, quando faz a afirmação inicial [o açoriano que agarrou Portugal à televisão] tenho de dizer que sinto um enorme orgulho nisso.

 
 

 
​RFP: Mas sente que é verdade…
JEM: Sinto orgulho pela carreira que fiz e tenho feito em televisão – e mais ainda por vir de uma ilha onde não tinha televisão. Só vi televisão a partir dos 17 ou 18 anos, aqui no continente. Acho que isso me aproximou muito na compreensão da relação do espectador com este meio.

 
RFP: Temos de descobrir o que o espectador quer antes de lhe dar um programa. Até parece que é um exercício fácil.
JEM: Isto tem muito de experimentalismo, obviamente. Mas tem muito de análise do que é a natureza humana e de compreensão das nossas preferências, inclinações, formações. É evidente que você gosta de umas coisas que eu sei que a minha secretária não gosta, ou que o senhor que está no portão não gosta. Como montar um modelo que sirva a todos? No desenho de um telejornal, de uma novela, de uma série ou de qualquer outro programa, temos de introduzir componentes que façam com que toda esta gente “fale” uma com a outra. Não há fórmulas únicas, mágicas. Em muitos casos vamos por tentativa e erro. O que importa é acertar mais do que se erra.

 
RFP: Conseguiu isso na RTP?
JEM: Nos anos 90, na RTP, tivemos uma programação que chegou a ser considerada em alguns fóruns europeus, como a Eurovisão, uma das melhores da Europa. Tínhamos um jornalismo que tinha feito uma evolução enorme, trouxemos grandes séries, grande cinema e produzimos muita coisa nossa. Foi uma abertura da própria RTP ao mundo, alinhada por padrões europeus.

 
RFP: E na TVI?
JEM: O que fiz na TVI foi acreditar que era possível fazer as pessoas perceberem que nada nasce sem começar pequeno. A lógica de relação com o espectador é que é predominante. Tentámos mostrar que há vários caminhos possíveis no consumo de produto televisivo. Temos de agregar componentes dentro dos programas que falem bem com cada um dos estratos da sociedade.

 

 
 

 
RFP: Nos últimos 20 anos marcou a TV, seja na ficção, entretenimento ou na informação. Sente o peso da responsabilidade na «educação» da população? Os argumentos das novelas trazem temas de actualidade, a informação mudou e o entretenimento sofreu o boom do Big Brother…
JEM: Vamos lá por partes. É evidente que nenhum programador se pode dissociar da realidade em que funciona. Se me pergunta se antes de lançar o Big Brother eu tinha a noção do efeito que ia ter, a resposta é não. Sabia que ia ter um impacto forte, não sabia que ia provocar o dilúvio que acabou por acontecer. Também não sabia que íamos assistir dentro de uma casa a cenas nunca vistas em televisão. O que é certo é que, apesar de o BB ser o que era, apesar da grande controvérsia que gerou, conseguimos manter o programa dentro de alguns padrões básicos fundamentais. Devo referir que o Big Brother era, porventura, o produto mais transversal que existia, porque era visto da classe A à classe E. E toda a gente via, discutia. Mesmo quem dizia que não via. São coisas que me dão prazer quando olho retrospectivamente: fomos capazes de trazer coisas que ninguém tinha visto. Conseguimos fazer o país alinhar por práticas que existiam lá fora. Dir-se-á: o Big Brother não é um grande exemplo do que o país precisava. Dir-lhe-ei que é um programa de TV, de entretenimento. Nós não vamos substituir em nenhum momento a escola, a universidade ou as famílias na educação das crianças e dos jovens. A televisão pode ter um papel, mas não o fundamental.

 
RFP: E na informação da TVI, que papel foi esse?
JEM: O que fizemos na informação foi fazer um jornalismo de proximidade, susceptível de combater a informação institucional da RTP e da SIC, porque a partir do momento em que se tornou líder, a SIC ficou institucional. Nós entrámos pelo meio dos dois   e fomos muito revolucionários, porque éramos muito aguerridos, o que é diferente de agressivos. Tínhamos o atrevimento de fazer perguntas, de não virar as costas quando havia necessidade de questionar fosse quem fosse: um ministro, um secretário de Estado, um Presidente da República, um administrador de empresas. Fosse quem fosse. Éramos incómodos e essa percepção por parte da opinião pública foi boa e «remunerou-nos», no sentido de nos reconhecer o mérito. Outra coisa que fizemos foi avançar na produção nacional de ficção. E correu muito bem.

 
RFP: A recusa da Globo empurrou-vos?
JEM: Isso tem uma história. Eu quis que a TV Globo nos vendesse produto. A TV Globo não quis, porque tinha um contrato único com a SIC que não quis romper. Eu próprio disse aos meus amigos da Globo que iríamos seguir o nosso próprio caminho e se calhar um dia poderiam ter algum desgosto por terem decidido não alinhar connosco. A verdade é que as coisas nos correram muito bem. E porquê? Porque passámos a fazer produção que não existia em português de Portugal e porque passámos a trazer para dentro da televisão, também na ficção, temas da actualidade portuguesa. Esta forma de actuar tem muito a ver com a percepção de que a TVI, uma estação pequenina, para crescer tinha de ser atrevida, trazer modernidade.

 
RFP: Está a dizer que criou uma frente com informação, entretenimento e ficção. Recuperando a imagem da sedução, de que falou, sente que com o BB se dá o primeiro coup de foudre entre a população e a TVI?
JEM: Sim, dá-se aí. Eu sou um defensor de causas impossíveis. Sempre disse que as tarefas mais engraçadas e que nos motivam são aquelas que aparentemente não têm solução. Quando fui para a TVI, os meus amigos diziam que me ia meter num buraco, porque não tinha hipótese nenhuma. E eu achei graça, porque era uma missão impossível. Em televisão nada é impossível. Quando juntamos a criatividade à determinação, desde que tenhamos algum dinheiro, temos de nos reinventar para encontrar soluções.     É um combate connosco mesmos – não é preciso ter muito dinheiro, até porque quando há muito a tendência é para não sermos criativos. O tal coup de foudre foi dado aí, mas faço questão de frisar que o crescimento da TVI não se deveu apenas ao Big Brother. Foi uma das peças. Falei num tripé, porque tinha a noção de que sem uma das três coisas não avançávamos. Se fosse só o BB teríamos crescido 10 pontos. A verdade é que crescemos 20 e tal pontos, porque tudo estava agregado. Sente-se na minha conversa que eu tenho paixão por televisão e jornalismo e que gosto daquilo que faço. E quando gostamos do que fazemos, removemos caminho. Eu nunca imaginaria, aos meus 14 anos, vindo de uma ilha no meio do Atlântico, poder ter com os espectadores portugueses a relação que tenho hoje. E a verdade é que isso me dá um imenso prazer.

 
RFP: É abordado na rua? Reage bem?
JEM: Sim, as pessoas ainda hoje vêm falar muitas vezes comigo, como se eu ainda fosse o director da TVI. Explico que já não sou. Acho graça a isso. Há uma era na televisão em Portugal com a qual eu sou associado e tenho muito orgulho.

 

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