ANF reforça importância da revisão da medicação como serviço farmacêutico
A revisão da medicação foi um dos temas em debate no simpósio conjunto da EDQM e do INFARMED.
Texto de Ana Rita Cunha
«A revisão da medicação tem o potencial de se tornar um pilar fundamental dos cuidados farmacêuticos, contribuindo para melhores resultados em saúde e para um sistema de saúde mais sustentável», afirmou a presidente da ANF, Ema Paulino, durante o simpósio conjunto da Direção Europeia da Qualidade do Medicamento e Cuidados de Saúde (EDQM) e do INFARMED.
O evento, que decorreu em Lisboa nos dias 5 e 6 de maio, reuniu especialistas, académicos e representantes de instituições do setor para discutir temas como os cuidados centrados nas pessoas e a segurança do medicamento. Num painel dedicado à revisão da medicação, a presidente da ANF destacou o papel essencial das farmácias comunitárias enquanto estruturas de proximidade particularmente bem posicionadas para identificar problemas relacionados com as terapêuticas, e para promover a utilização segura e eficaz do medicamento.
«O envelhecimento da população, o aumento das doenças crónicas e os níveis crescentes de polimedicação evidenciam a necessidade de intervenções estruturadas e centradas na pessoa para identificar e resolver problemas relacionados com a medicação, particularmente aqueles que muitas vezes permanecem ocultos», sublinhou.
Neste contexto, a revisão da medicação surge como uma resposta com potencial crescente nas farmácias comunitárias, embora continue a ser uma prática ainda emergente em Portugal, desenvolvida sobretudo através de projetos-piloto focados na otimização da terapêutica e na desprescrição. Segundo a presidente da ANF, esta intervenção pode afirmar-se como «um serviço sistemático, prático e centrado no doente, com benefícios claros tanto para os resultados clínicos como para a segurança na utilização dos medicamentos».
Durante a sessão, Ema Paulino destacou ainda a renovação da terapêutica crónica nas farmácias comunitárias e a Preparação Individualizada da Medicação (PIM) como dois avanços relevantes, que representam também oportunidades para a implementação prática da revisão da medicação.
O projeto C-SENIoRr, desenvolvido em colaboração com a ULS do Alto Minho, foi também apresentado como um caso concreto do impacto da intervenção farmacêutica. A iniciativa permitiu reduzir em 45% a utilização de inibidores da bomba de protões em pessoas com 65 ou mais anos, sem reaparecimento de sintomas e com melhorias da qualidade de vida. «Este é um exemplo claro de como a colaboração estruturada se pode traduzir numa utilização mais segura e apropriada dos medicamentos», afirmou.
Segundo a presidente da Associação, Portugal apresenta «uma oportunidade clara» para implementar a revisão da medicação como um serviço farmacêutico, beneficiando de uma rede de farmácias comunitárias capilar, de um reconhecimento crescente do papel clínico dos farmacêuticos e da transformação digital em curso no sistema de saúde. Ainda assim, defendeu que é necessária uma abordagem mais estruturada, com maior articulação entre os diferentes níveis de cuidados de saúde, processos mais padronizados e incentivos de remuneração adequados.
O evento contou também com um painel dedicado à disponibilização à distância de medicamentos e à prestação de serviços digitais, no qual Jorge Batista, representando o Grupo Farmacêutico da União Europeia (PGEU), defendeu a importância de garantir o equilíbrio entre os canais físicos e digitais de prestação de serviços farmacêuticos, assegurando os mesmos níveis de responsabilização e proteção para os cidadãos. O responsável sublinhou ainda a mais-valia da proximidade da rede física de farmácias para modelos de cuidados mais sustentáveis e assentes na confiança.
A ANF, em conjunto com o PGEU, contribuiu para o desenvolvimento da Recomendação do Conselho da Europa sobre boas práticas nesta matéria, que reitera a importância de assegurar que este serviço é utilizado em benefício das pessoas e da Saúde Pública, devendo garantir equidade no acesso e alternativas para quem estes modelos possam não ser apropriados.