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A roda do mundo

​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​Como usar as farmácias para melhorar a saúde das populações e conter os custos dos orçamentos públicos? ​

Texto de Maria Jorge Costa • Foto de Alexandre Almeida

Austrália aboliu tabus

Há 20 anos que o Estado contratualiza com as farmácias milhares de milhões de investimento. A explicação é simples: poupa muito mais.



Na Austrália há consultas de telemedicina nos gabinetes das farmácias. E as farmácias são remuneradas pelo Estado sempre que optam por não dispensar uma receita. Estas são duas inovações do “Gold Standard” para a prestação de serviços farmacêuticos, implementado pelo Governo australiano. «Existe um acordo desde 1990, negociado de cinco em cinco anos, que nasceu com o objectivo de reduzir os gastos hospitalares. O último acordo prevê uma poupança de 3,7 mil milhões de dólares australianos (2,4 mil milhões de euros)», relatou George Tambassis, presidente do Pharmacy Guild of Australia (PGA), instituição homóloga da ANF.

A preocupação do PGA foi «garantir que essa poupança não fosse feita à custa das farmácias». A solução foi descobrir «formas inovadoras» de garantir poupanças aos orçamentos do Estado. E isso foi conseguido. «Como contrapartida, conseguimos subir a remuneração para a dispensa e duplicámos o valor para os programas de formação em 2,67 mil milhões de dólares australianos (1,7 mil milhões de euros)», descreveu Tambassis. Os programas, no entanto, são sujeitos a uma análise rigorosa de custo-benefício, a cargo de um comité independente. Na linha das boas práticas defendidas pela Federação Internacional de Farmácias, todas as medidas do acordo têm de passar por uma análise dessa natureza. «Temos acesso a dinheiro, mas temos de provar que, em troca, geramos benefícios», expôs.

Os acordos quinquenais trazem estabilidade, mas o sector tem de inovar. «Queremos transformar a farmácia num centro de prestação de cuidados de saúde», salientou George Tambassis. As farmácias fizeram um acordo com uma empresa de telemedicina para proporcionar consultas médicas na hora aos utentes. «Se um doente nos chegar à farmácia com um problema e não tiver uma consulta, ligamos a um médico, via Skype, e facilitamos a realização dessa consulta na nossa farmácia», descreveu o presidente do PGA. As farmácias estão ainda a trabalhar no sentido de fazerem «o tratamento de afecções menores, renovação da prescrição contínua, alargamento da vacinação, avaliação de riscos e análises básicas».

George Tambassis defendeu que as farmácias têm de mudar de paradigma: de retalhistas para prestadores de cuidados de saúde primários. Através da colaboração com outros profissionais de saúde, da abertura de espaços reservados, que permitam consultas privadas, ou do lançamento de programas e serviços que possam ser financiados pelo Estado. O presidente do PGA defendeu que não pode haver preconceitos quanto à remuneração do serviço farmacêutico. «Somos a única actividade da saúde onde as pessoas entram sem marcação e recebem aconselhamento gratuito. Por isso, temos de ser devidamente remunerados quando dispensamos medicamentos. Este não pode ser um tabu», enfatizou Tambassis. O sistema australiano comparticipa todos os doentes. «Tem de haver um ponto em que se possa cobrar por prestação de serviços, mas se as pessoas não puderem pagar – e isso acontece – tem de ser o Estado a pagar», concluiu.


O sonho americano

Num grupo dos EUA com 38 hospitais, os farmacêuticos garantem a adesão à prescrição médica e apoiam os médicos com informação especializada. Nunca trabalham separados.



Nos Estados Unidos da América, equipas clínicas integram farmacêuticos nas visitas aos doentes e ajudam os médicos nas questões terapêuticas, «o que se tem revelado melhor para quem trata, quem é tratado e quem paga o tratamento» revelou Dennis Helling, da Skaggs School of Pharmacy and Pharmaceutical Sciences. O acompanha- mento farmacêutico ao nível dos cuidados primários de saúde «melhora o controlo da tensão arterial, baixa   o colesterol e os triglicerídeos, melhora o controlo da diabetes e a evolução de doentes com asma», afirmou ainda o professor da Universidade do Colorado.

Este perito partilhou com os congressistas o modelo desenvolvido no grupo de saúde norte-americano Kaiser Permanente, maior prestador não lucrativo de cuidados médicos nos EUA, com mais de dez milhões de beneficiários. «Instalámos gabinetes de atendimento de farmácia clínica ao lado da consulta de médicos de família, e fiz o mesmo em consultas especializadas, como cardiologia, oncologia, psiquiatria, geriatria e cuidados paliativos. No nosso grupo, temos protocolos que mostram melhorias contínuas na saúde das pessoas, um decréscimo nos custos e poupanças de recursos», relatou.

O modelo começou nos cuidados de saúde primários e alargou-se aos cuidados hospitalares. A inovação é que o médico passou a contar com um farmacêutico na equipa, focado em garantir que o doente toma a medicação adequada – na dose recomendada e durante o tempo certo, educando-o a tomar os medicamentos de forma segura. O farmacêutico verifica se as indicações médicas são cumpridas. Por outro lado, apoia os médicos com os seus conhecimentos. «Os nossos farmacêuticos são especialistas em informação isenta e dão aos médicos avaliações sobre fármacos mais eficazes, seguros e custo-efectivos e com isso reduzimos a despesa», explicou Dennis Helling.

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