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«A única luz acesa»

​​No Curral das Freiras, as pessoas seguem os conselhos, sobretudo se vierem da farmácia, garante o utente Célio,​ ex-emigrante em Londres.

Texto de Sandra Costa

No coração da Madeira, o Curral das Freiras é uma freguesia «pobre mas muito bonita», resume Belandina Brasão, que ali vive desde sempre. A pequena localidade fica no fundo do vale, circundada pela enorme montanha frondosa. Lá moram 2000 almas, a maioria idosos com reformas parcas e múltiplas patologias. Doentes de risco para o novo coronavírus. Antes era visitada por turistas, agora não. A pandemia do COVID-19 levou os turistas e fechou as poucas portas abertas ao público: a escola, as lojinhas de artefactos regionais, os cafés e restaurantes, os poucos negócios familiares. «É um drama, o Curral das Freiras já era um deserto, agora nem se fala», queixa-se Belandina. 

Resta o supermercado e a farmácia, que mantém as portas abertas todos os dias da semana. «É a única luz acesa», confirma a farmacêutica Ana Ornelas. Quando há 15 anos abriu a Farmácia do Vale naquele lugar isolado, sabia que prestava um apoio importante à população, mas nunca imaginou que os seus préstimos viessem a ser tão requisitados. Há pessoas que recorrem à farmácia para resolver situações urgentes, agora que o centro de saúde reduziu o horário a três manhãs por semana, e os serviços à enfermagem e secretariado. Outras procuram a farmácia para perguntar quando os técnicos da Segurança Social vão ao Curral das Freiras. Por vezes até ligam, antes de saírem de casa, só para confirmar se o supermercado está aberto. 

A directora-técnica anda numa azáfama, apoiada pela equipa de três pessoas, para dar resposta às solicitações. Mas fá-lo de boa vontade. Conhece bem a comunidade que serve. Sabe que persiste um elevado nível de iliteracia, muita gente não sabe usar recursos digitais, como o e-mail ou as redes sociais, e nem lê o papel afixado na porta dos serviços indicando o novo horário. As pessoas precisam de uma cara, alguém que os ouça e oriente nas mudanças do quotidiano ditadas por um vírus que ninguém esperava. 

A comunidade funciona como uma grande família. É por isso natural que o município de Câmara de Lobos peça ajuda à farmácia para divulgar os apoios disponíveis, ou que os técnicos da Segurança Social lá deixem os contactos para se algum utente precisar. «As pessoas entre-ajudam-se», explica Ana Ornelas. Através do telefone, tem conseguido desbloquear muitas situações com a médica. «Ela entra logo no processo e às vezes até se oferece para enviar a receita e o assunto fica resolvido na hora. Tem sido excelente», diz satisfeita. «Os médicos ficam satisfeitos, os utentes ficam satisfeitos e nós também», sintetiza.

Há ano e meio, Célio Rebolo regressou ao Curral das Freiras depois de 20 anos emigrado em Londres, onde trabalhou como segurança privado. Domina sete idiomas, conta a farmacêutica, que conhece bem os clientes. Abriu um bar no centro da freguesia, agora encerrado devido ao coronavírus. Preocupa-o o futuro do turismo na Madeira, mas preocupa-o mais ainda a saúde e a segurança dos seus. Tem consigo os sogros, com mais de 80 anos, e a esposa não descura as medidas de segurança: até as maçanetas das portas e os manípulos do carro são desinfectados a cada saída de casa. 


​Célio elogia a forma como os madeirenses estão a cumprir as instruções das entidades de saúde e acredita que é o motivo do reduzido número de casos. No Curral das Freiras louva o «excelente trabalho» que a Farmácia do Vale tem feito desde o primeiro momento. «Achei impressionante a firmeza da doutora Ana quando nos disse que era preciso fazer isto, isto e isto porque a situação era grave. As pessoas seguem os conselhos, sobretudo se vierem da farmácia». 

A forma como a farmácia está a trabalhar inspira confiança nas pessoas. O atendimento ao postigo, a equipa munida de luvas e máscara, tudo desinfectado. A janela que separa os utentes da equipa não impede o atendimento atencioso. «A farmácia tem seguido as instruções à risca. Age com profissionalismo, atitude e tem muita vontade de ajudar», declara Célio.

A farmacêutica confirma que a segurança dos utentes e da equipa foi a primeira preocupação. Não existe outra farmácia num raio de dois quilómetros e por isso optou por seguir as recomendações e atender ao postigo. De seguida empenhou-se em resolver as «rupturas recorrentes» de alguns fármacos e produtos para desinfecção. Tem sido «um desgaste muito grande» conseguir a melhor qualidade ao melhor preço. Ainda tem uma lista de espera grande para o fornecimento de máscaras, mas está certa de que «as pessoas sabem que não exploramos e tentamos dar resposta às necessidades».


​A maioria dos utentes abasteceu-se ainda antes do decretar do estado de emergência. Quando não podem deslocar-se à farmácia contam com o apoio da família ou vizinhos. A Farmácia do Vale não tem o serviço de entrega ao domicílio instituído, mas, se alguém precisar, entrega em casa de boa vontade. «Ninguém fica sem o seu tratamento», garante a farmacêutica. 

Tem a «sensação de dever cumprido» e isso compensa o medo pelo futuro. A Farmácia do Vale está habituada a viver em crise, mas receia o impacto da pandemia. A venda de medicamentos sujeitos a receita médica aumentou, mas todas as outras categorias caíram «de forma abrupta», sobretudo o que não é medicamento. «As pessoas estão a limitar as compras ao  importante», nota Ana Ornelas, sem esconder que teme que os despedimentos e situações de lay off aumentem a carência económica da comunidade.

Belandina Brasão está bem familiarizada com o COVID-19. Trabalha como assistente operacional no centro de saúde de Santo António, no Funchal. Sente que as pessoas estão nervosas, «têm medo de tudo», mas estão a adaptar-se à nova realidade. Deixa escapar, com tristeza, que «a vida nunca mais vai ser igual». O que mais lhe custa é não poder estar com a família. Ficou cinco semanas sem ver os dois netos, andava tão triste que a filha foi lá a casa instalar-lhe o WhatsApp no telemóvel.

Só sai de casa para trabalhar (semana sim, semana não), ir às compras e à farmácia. Precisa de «medicação aos montes». Sofre de artrite reumatóide, entre outras maleitas, o marido tem uma prótese na coluna há 30 anos. Sempre soube que podia contar com a farmácia e agora não é diferen​​​​​​​te. «Neste COVID-19 têm ajudado muito as pessoas, se não têm vão buscar, telefonam, se for preciso vêm a casa trazer. Sempre com um sorriso na cara». Belandina sente-se mais segura por poder contar com a farmácia. «Sempre que eu preciso estão lá», confirma. Diz que é preciso dar valor às pessoas que estão na linha da frente nesta altura complicada. «A farmácia é das coisas importantes na nossa freguesia. Ai de nós se não fosse esta farmácia aqui no Curral das Freiras!». 

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