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«Contamos com a farmácia a 100 por cento»

​​​​​​​​​​​Alberto e Lurdes Lima não saem de casa desde 12 de Março. Contam com os filhos para lhes trazer alimentos e com o farmacêutico para as entregas dos medicamentos.

Texto de Sandra Costa

Farmácia Central, Escariz

Ele tem 76 anos, ela 69. Padecem dos males «inerentes ao bilhete de identidade»: colesterol e tensão arterial elevada, ele soma ainda problemas na próstata. Ocupam os dias a apanhar fruta, arrancar as ervas e a tratar dos cães, galinhas e ovelhas. Sabem a sorte de ter o palmo de terra que circunda a casa em Cabeçais, nos arredores de Escariz, concelho de Arouca. Sempre dá para apanhar ar e esticar as pernas. «Levamos uma vida recatada, praticamente sem nenhum contacto com o exterior», explica Alberto Lima. Decidiram encerrar o café, de que são proprietários, ainda antes da declaração do estado de emergência.



Desde o dia 12, José Miguel Sousa, director-técnico da Farmácia Central, já lá foi três vezes. Quando é preciso leva também medicamentos para os cães. «É um favor que nos faz, tem sido extraordinário. Contamos com a farmácia a 100 por cento», reconhece Alberto, agradecido. Conta que o farmacêutico, mesmo antes do COVID-19, já tinha o hábito de entregar em casa dos mais idosos, ou de quem tivesse problemas em deslocar-se à farmácia. «Faço-o com o maior dos gostos. Mais ainda agora. É o meu pequeno contributo para minimizar um problema de tão grande dimensão», explica José Miguel Sousa. 

O gerente da única farmácia da aldeia está focado na ajuda que pode dar à comunidade durante a emergência sanitária, mas anseia o futuro. Depois do pico de procura que antecedeu a declaração do estado de emergência, nos últimos 15 dias a retracção económica já se fez sentir. As pessoas procuram mais genéricos e marcas mais baratas. O encerramento das fábricas e serviços da região deve agravar a situação nos próximos meses. «Tenho uma grande preocupação de não ter de baixar o salário a ninguém. Pedi aos colaboradores para estarmos muito unidos e trabalharmos o melhor possível», avança.

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O confinamento voluntário de Alberto e Lurdes Lima é uma medida de precaução. «Prefiro ficar aqui a olhar para os passarinhos e as galinhas do que arranjar um passaporte para o outro lado», diz Alberto, a voz sorridente através da linha telefónica. Contam com os filhos para lhes trazer os alimentos e com o farmacêutico para as entregas dos medicamentos. Fazem o pedido por telefone, ele deixa-lhes os medicamentos junto ao portão. Os filhos encarregam-se de pagar por transferência bancária. José Miguel Sousa faz as entregas à noite, quando fecha, ou quando tem um bocadinho livre. Da última vez que passou pela casa de Alberto Lima, levou medicamentos a mais três famílias. Não hesita em confessar o sentimento que o liga a esta população envelhecida e com poucos meios. «São pessoas de uma vida e neste momento temos de valer-lhes», diz. E não é só ele. «Sei de mais farmácias que o fazem. A nossa rede de farmácias funciona muito nesta base, sobretudo as localizadas em meios rurais». ​


Nesta crise do COVID-19, as entregas domiciliárias garantem às pessoas mais velhas e com doenças crónicas, de maior risco, que não têm de sair de casa. Mas o apoio da farmácia à comunidade vai muito além disso. Ao telefone, o farmacêutico de 51 anos explica que logo quando se começou a falar deste novo coronavírus a farmácia entrou em acção, alertando a população para os cuidados de prevenção. José Miguel Sousa chegou a telefonar aos proprietários de algumas pequenas fábricas de calçado da zona, que empregam 20 ou 30 pessoas, para sensibilizá-los para as medidas de protecção dos trabalhadores. «A consciência da doença aqui na nossa zona deve-se muito à farmácia», reconhece. «Na farmácia arranjamos sempre tempo para uma palavra de conforto: “Vão para casa, protejam-se, tudo se vai resolver”». 

A farmácia também tem sido procurada para dar resposta a nível dos cuidados primários de saúde, agora que os centros de saúde não estão a receber pessoas e os hospitais suspenderam as consultas de especialidade. Ou quando as pessoas tentam entrar em contacto com a Linha SNS 24 e não conseguem. «As farmácias neste momento têm uma dimensão social enorme. Ainda bem, é para isso que fomos formados e estamos no terreno». 

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