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Devia ser a nossa forma de viver

​​​​​​​​​Começou em criança a bater o pé.

Texto de Paulo Martins

Se a fechassem num quarto, não desataria a chorar. Em vez de se entregar ao pranto, «começaria a furar a parede com os dedos, até escavar um buraco». O pai de Odette Ferreira tirou-lhe assim a pinta, não teria ela mais de 6 anos, segundo contou em 1993 à revista Visão. A persistência, um dos mais fortes traços da sua personalidade, foi precocemente diagnosticada. Nenhuma adversidade a travava, como revelam múltiplos episódios de uma vida activa até ao fim.

Quando a criação da licenciatura em Farmácia na Universidade de Lisboa, em 1968, abriu a possibilidade de subir um degrau na formação – detinha o bacharelato – preparou-se para voltar aos bancos da escola.

O marido torceu o nariz, porque já era quarentona, mas acabou por ceder. Terá por isso amolecido a resistência a novas aventuras da mulher, que poucos anos volvidos decidiu rumar a França, sozinha, para fazer um estágio indispensável ao doutoramento, que realizaria na Universidade de Paris Sud.

A bolsa de 900 francos mensais, atribuída pela Embaixada de França, não dava para excessos. “Betinha” (a expressão é dela), por uma vez não podia contar com a família. De «mãe e mulher quase a tempo inteiro», que cuidava da mesa «posta com todos os requintes de etiqueta» e só saía de casa na companhia do marido, passou de novo a estudante. Alojada numa residência universitária, viu-se forçada a contar os tostões. Tornou-se mais prática: «Deixei de achar necessário arranjar-me ao pormenor para ir ao cinema, por exemplo, coisa que fazia em Lisboa», recordou, em 2009, numa entrevista ao site Alert-online.

Não era mulher de se furtar a obstáculos. «A Ordem dos Médicos dizia que os farmacêuticos não podiam fazer análises. Um dia, fui às Finanças para abrir um laboratório e não me deixaram. Pedi logo para ver onde é que isso estava escrito em Diário da República. O homem, só para me despachar, autorizou».

A estória foi invocada há três anos, em entrevista à Farmácia Portuguesa. «Só queria mostrar que um farmacêutico podia ter um laboratório», mas quebrou o tabu: foi o primeiro não registado por um médico.

No mundo académico, revelou-se muito pouco convencional. Convidada para assistente logo após a conclusão do curso, em 1970, nas áreas de Bacteriologia, Virologia e Microbiologia, deu a volta ao sistema. Matou o rígido modelo de aulas práticas, em que os alunos quase não podiam mexer em tubos de ensaio, e passou a ter a sala a abarrotar. Atribuía tarefas, puxava pelos estudantes, mesmo os que não tinham boas notas, quando topava o seu potencial. José Moniz Pereira, hoje catedrático, contou em 2016, numa homenagem da Ordem dos Farmacêuticos, que o convenceu a ir ao exame prático de final do curso, apesar de estar doente, alegando que um mês depois iria precisar dele, já licenciado: «Deixa-te de mariquices. Levantas-te e vais ao exame!», impôs.



«Os estudantes foram a razão de ser da sua vida profissional », afirmou em diversas ocasiões outra ex-aluna, Ana Paula Martins, sublinhando a força que transmitia, sem abdicar da exigência. Odette subscreveria estas palavras da bastonária da Ordem dos Farmacêuticos. Porém, confidenciou à biógrafa Sandra Nobre, autora de “Uma luta, uma vida”, que a obra de que mais se orgulhou foi o envolvimento de professores e colaboradores franceses em projectos de investigação. À partilha de conhecimento, pouco habitual no Portugal dos anos 70, mostrou-se atento o Estado francês, que em 1975 lhe atribuiu o Chevalier dans l’Ordre des Palmes Académiques, pelo contributo para a cooperação científica entre os dois países.

A construção do novo edifício da Faculdade de Farmácia constituiu uma das muitas provas da sua determinação. Presidente do Conselho Directivo, conseguiu que a universidade duplicasse a verba orçamentada. Todavia, considerou-a insuficiente e foi bater à porta do reitor. Numa homenagem em 2014, José Morais, seu companheiro no órgão, aludiu à reunião. Perante o argumento do reitor de que deveria dar-se por satisfeita com a duplicação de verbas, Odette ripostou: «Sabe muito bem que o dobro de zero é zero».

Ganhou a parada e ficou com a missão de gerir milhões. Movida pela preocupação – quase obsessão – com o rigor nas contas, levava para casa documentos, que passava a pente fino. Exigiu auditorias regulares, não fossem cair-lhe em cima 'telhados de vidro', e impacientou-se com a lentidão do processo. Um dia, sem margem financeira para uma intervenção final e a criação de acessos ao edifício, quase concluído, convenceu o presidente da Associação de Estudantes, membro do Conselho Directivo, a acompanhá-la numa reunião com o secretário de Estado do Ensino Superior. «Precisava de autorização especial para libertar o dinheiro e queria alegar que estava a sofrer grande pressão dos alunos, que fariam greve se a questão não se resolvesse», recorda Paulo Cleto Duarte.

A Associação «era pacífica», mas estando em causa os interesses da faculdade, não cruzaria os braços, admite o actual presidente da ANF. Parte da verba foi desbloqueada.

Odette Ferreira presidiu entre 1992 e 2000 à Comissão Nacional de Luta Contra a Sida. Condicionou a aceitação do convite do ministro da Saúde, Arlindo de Carvalho, ao “sim” dos directores dos serviços de Infecciologia. Como o cargo fora sempre ocupado por médicos, interessava-lhe saber o que pensavam da escolha de uma farmacêutica. Todos concordaram. Um ano depois, para concretizar o programa Diz Não a uma Seringa em Segunda Mão​ (ver págs. 68-71), confrontou o Procurador-Geral da República com a necessidade de ultrapassar o impedimento legal de dispensa de seringas pelas farmácias. «Disse-lhe que não queria que as pessoas andassem a dizer que estava a fomentar o consumo de droga. Mas ele respondeu logo: “Já percebi que isso é um problema de saúde pública. Se tiver problemas, eu estou cá para responder”», lembrou na citada entrevista à Farmácia Portuguesa.

Irreverente até ao fim, nunca deu a última aula, pelo que, oficialmente, não se jubilou. Após o limite de idade, continuou a orientar projectos de investigação, graciosamente, cumprindo a rotina diária de deslocação à faculdade. «Que sentido faz, quando a pessoa tem mais experiência, ir para casa?», questionava-se.

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