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Do desenrascanço ao profissionalismo

​​​Doentes dos Açores cansados de pedir favores para receber medicamentos hospitalares pelo correio.

Texto de Sandra Costa • Foto de Eduardo Costa

Sidónia Correia preparava-se para ir de férias para Miami quando a vida lhe trocou as voltas. Os resultados das análises de rotina que fez no laboratório onde trabalha, em Ponta Delgada, caíram como uma bomba e estilhaçaram todos os planos. «Passei do sonho das férias ao pior dos pesadelos», resume, uma ponta de ironia na voz.

Trocou Miami por Lisboa, onde repetiu o hemograma logo no dia seguinte. Passados dois dias, a 1 de Abril, fez um mielograma, exame para avaliação da medula óssea. Infelizmente, o pior diagnóstico confirmou-se: leucemia mielóide crónica (LMC), um cancro raro que interfere no desenvolvimento das células sanguíneas saudáveis, agravada por uma leucemia linfoblástica aguda (LLA), uma doença maligna do sangue. A partir daí foi todo um «trambolhão».


Sidónia Correia recebia a medicação crónica em São Miguel por um transitário

Já não saiu do Hospital dos Capuchos, onde ficou internada durante seis semanas, a que se seguiram dois meses e meio de tratamento ambulatório em Lisboa. Só regressou a São Miguel cinco meses depois do diagnóstico, em finais de Julho de 2019. Trouxe consigo um companheiro para o resto da vida: o Dasatinibe, um fármaco oral que melhorou significativamente o prognóstico da LMC. Quando vai a Lisboa, às consultas trimestrais, Sidónia traz medicação para um mês. Nos outros meses, contava com o apoio do namorado, que levantava a medicação na farmácia do hospital e a enviava para São Miguel por um transitário. «Eu estava sempre dependente de uma ida lá ou de alguém que me fizesse chegar cá o medicamento», lamenta Sidónia.


José Paulo Medeiros, morador na Ribeira Grande, dependia de favores para receber a medicação pelo correio

Dependente de favores, durante cinco anos, esteve também José Paulo Medeiros, morador na Ribeira Grande e proprietário de uma empresa de construção civil. Em Fevereiro de 2015 fez um transplante hepático no Hospital Curry Cabral. Desde então, a toma diária de Advagraf ajuda o organismo a não rejeitar o fígado. Como para Sidónia, é medicação para a vida. As consultas em Lisboa começaram por ser mensais, hoje José vai a cada nove ou dez meses. A médica dá-lhe receitas suficientes até à próxima consulta, mas isso a todos os doentes, ou não fazia mais nada do que andar a caminho dos correios», admite José Paulo Medeiros, reconhecendo que «é sempre um bocado chata» esta dependência.

Por ironia, só a pandemia de COVID-19 libertou José, Sidónia e milhares de doentes crónicos da obrigação de percorrerem centenas de quilómetros desnecessários ou de pedir favores para obterem a medicação de que precisam para viver. A necessidade de proteger os doentes mais frágeis de viagens arriscadas aos hospitais levou à aprovação de legislação para a dispensa de medicamentos hospitalares através da farmácia comunitária.


«Não se justifica o utente ter de ir a um hospital para receber a medicação, seja em Ponta Delgada ou no continente», critica Teresa Almeida Lima, directora-técnica da Farmácia Central, na Ribeira Grande

«Não sei por que esta medida não foi implementada antes», critica Teresa Almeida Lima, directora-técnica da Farmácia Central, na Ribeira Grande, onde desde há quatro meses José Paulo Medeiros levanta o Advagraf. «Não se justifica o utente ter de se deslocar a um hospital para receber a medicação, seja em Ponta Delgada ou no continente». A farmacêutica lembra que as farmácias comunitárias são «uma rede aberta sete dias por semana, 24 horas por dia, todos os dias do ano, sempre com farmacêuticos presentes, o que permite dispensas seguras e com o aconselhamento devido».

A proximidade e a confiança são valores essenciais em saúde. «Os doentes gostam de receber os seus medicamentos na farmácia habitual, em vez de terem de se deslocar ao continente. É muito mais cómodo para eles», assegura Dalila Branco, farmacêutica na Farmácia Central.


Com a intervenção das farmácias comunitárias, os doentes que quiseram ficar confinados receberam os medicamentos em casa

Os doentes que optaram por ficar confinados receberam a medicação hospitalar ao domicílio. As farmácias comunitárias prestaram este serviço de forma gratuita durante a pandemia e continuam a fazê-lo até o mesmo ser avaliado e contratualizado. Os distribuidores farmacêuticos asseguram o transporte nas condições ideais de temperatura e humidade. «Os medicamentos são caros e pelos correios normais podem extraviar-se», acrescenta José Paulo Medeiros.

Outro aspecto crítico é a confidencialidade. «Só nós e o utente é que sabemos que se trata de medicação crónica», explica Ricardo Gaspar, director-técnico da Farmácia Vasconcelos Raposo, situada em Capelas, a Norte da ilha. Sidónia Correia, que já ali recebeu o Dasatinibe por quatro vezes, confirma: «É excelente! É só receber o telefonema, chegar aqui e levantar. Sabemos que o medicamento vem devidamente acondicionado e não temos de pedir favores a intermediários».


 Durante quatro anos, Henrique Nunes dependeu das idas trimestrais ao IPO de Lisboa para conseguir a sua hormona do crescimento

Durante quatro anos, Henrique Nunes dependeu das idas trimestrais ao Instituto Português de Oncologia de Lisboa para conseguir a sua hormona do ​crescimento. Na Farmácia Vasconcelos Raposo levantou a última embalagem de medicação injectável de que precisava para concluir o tratamento. O jovem de 19 anos, estudante de Engenharia Electrotécnica e de computadores que ambiciona ingressar no Instituto Superior Técnico, só deseja que o serviço se mantenha para quem dele ainda precisa. «É uma medida muito mais inteligente. Não perdemos tempo e dinheiro em viagens e alojamentos. É só sair de casa e vir buscar».

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