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«Estado deveria olhar mais para as farmácias»

​​​​​​​​A paragem simbólica de 23 minutos foi bem acolhida na Farmácia Baião Santos, em Queluz.

Texto de Sandra Costa • Foto de Pedro Loureiro

Poucos minutos depois das 15 horas já várias pessoas se aglomeravam à porta da Farmácia Baião Santos, em Queluz (distrito de Lisboa), abrigadas do sol abrasador nas arcadas do edifício. Na porta e nas vitrinas da farmácia estava afixada informação que explicava o porquê da suspensão dos serviços por 23 minutos. Foi a medida simbólica escolhida pelos farmacêuticos para alertar as populações para o também simbólico momento em que a petição “Salvar as Farmácias, Cumprir o SNS”, assinada por 120 mil portugueses, estaria a ser debatida na Assembleia da República. 

A directora-técnica, Fátima Baião Santos, saiu para o exterior para explicar por que não iam ser atendidos de imediato. Muitas pessoas não sabiam da iniciativa, outras tinham ouvido alguma coisa na televisão. Poucos conheciam em profundidade a iniciativa mas, quase tacitamente, concordavam com a paralisia dos serviços como forma de protesto. «É preciso ajudar as farmácias, para que elas apoiem a população», era a mensagem predominante. «Até podia ser o dia todo!», disse um utente.


​«O Estado deveria olhar mais para as farmácias, com olhos de ver. Acho que os 23 minutos sinceramente foram pouco», diz Lucélia Silva. A proprietária de uma empresa de apoio domiciliário conta com a Farmácia Baião Santos para os medicamentos de que precisa. Faz a encomenda pelo telefone e depois vai levantar. «Eles fazem 50 por cento do meu trabalho. Esta mulher é um anjo», diz, referindo-se à directora-técnica. Lucélia Silva ​conhece bem as exigências da área da saúde e o trabalho das farmácias. «É uma área humana que deveria ser mais valorizada. O atendimento na área da farmácia é importante. Não é só vender, a farmácia é o ouvinte, o psicólogo». 

Fátima Baião Santos não se enganou quando pensou que a suspensão momentânea dos serviços da farmácia ia ser bem acolhida pelos utentes. «Vão compreender que é para bem da população, é precisamente para continuarmos a prestar estes serviços aos utentes». A farmacêutica lembra os serviços que as farmácias prestam há anos, nomeadamente aos doentes seropositivos, e os novos serviços de apoio à população criados durante a pandemia COVID-19. Serviços como a dispensa de medicamentos hospitalares, que importa continuar a prestar no futuro, porque são muito valorizados pelas pessoas. 



«Esta é uma paragem simbólica para que as pessoas tomem nota que nestes 23 minutos está-se a debater o futuro das farmácias portuguesas e isso é extremamente importante». Fátima Baião Santos garante que o objectivo das farmácias é «continuar sempre a trabalhar com o Serviço Nacional de Saúde, em prol da saúde dos utentes», mas esclarece: «está na altura de haver uma comparticipação do Estado pelos serviços prestados», pois só assim é possível garantir que a rede de farmácias continua forte. Lembra que existem cerca de 700 farmácias em dificuldades, em muitas zonas do país onde praticamente são o único serviço de saúde com que as populações contam. «A nossa razão de ser é os utentes. Dizemos que há luzes que nunca se apagam e nós não queremos que as luzes se apaguem nunca!». 

Às 15h23 as portas da Farmácia Baião Santos voltaram a dispensar medicamentos. A equipa de dez pessoas, a trabalhar em espelho, como forma de protecção contra a COVID-19, retomou o trabalho habitual. Quem sabe, por esta altura, o debate entre os deputados tenha produzido condições para que as farmácias possam continuar a garantir o apoio a que já habituaram as populações. 

 

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