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Estudo revela que mais de metade das pessoas não adquirem a medicação prescrita

O documento aborda a relação entre as desigualdades no acesso aos medicamentos e as condições socioeconómicas, bem como as dificuldades da população no acesso ao SNS e as soluções alternativas.

Texto de Ana Rita Cunha

No ano passado, 52% das pessoas economicamente desfavorecidas não adquiriram toda a medicação prescrita, face aos escalões mais favorecidos, em que apenas 1% não o fez, segundo o relatório “Acesso a Cuidados de Saúde 2025", desenvolvido no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social, uma parceria entre a Fundação “la Caixa", o BPI e a Nova SBE.

Os dados, divulgados esta terça-feira, evidenciam um agravamento das desigualdades no acesso aos medicamentos, que atingiram «o seu expoente máximo» em 2025, e revelam que a medicação continua a ser o principal peso na despesa associada aos cuidados de saúde.

O estudo indica ainda que 67% das pessoas do escalão económico mais desfavorecido reportaram episódios de doença, face a 39% nos escalões mais favorecidos, culminando em casos de prescrição de medicamentos mais frequentes.

Simultaneamente, o documento apresentado pelos investigadores da Nova SBE, Pedro Pita Barros e Carolina Santos, afirma que as pessoas com mais dificuldades económicas têm também «maior probabilidade de não ir a uma consulta ou a uma urgência por questões financeiras».

A este nível, o relatório “Acesso a Cuidados de Saúde 2025" acrescenta que mais de metade das primeiras consultas no âmbito do SNS no ano passado foram realizadas fora do tempo considerado «adequado» e que as dificuldades de acesso aos cuidados de saúde têm impulsionado as pessoas a recorrer a «soluções alternativas», como consultas no setor privado ou automedicação.

A automedicação e o papel do farmacêutico

A automedicação é uma prática «generalizada» e «muito mais disseminada do que habitualmente se reconhece» em Portugal, mas, na maioria dos casos, os médicos não são informados do sucedido. Esta afirmação é corroborada pelo relatório “Automedicação em Portugal: Práticas, Determinantes e Perfis Comportamentais", também divulgado esta terça-feira, no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social, e que procurou analisar o comportamento dos portugueses em relação à automedicação, quer com medicamentos de venda livre, quer com os sujeitos a receita médica.

Mais de metade dos inquiridos admitiu ter recorrido à automedicação em algum momento, tendo considerado que esta opção «frequentemente, é eficaz». Segundo o documento, a prática pode revelar maior autonomia do doente para gerir os seus episódios de doença sem gravidade, ou, por outro lado, refletir a falta de capacidade de respostas do sistema de saúde, já que foi usada sobretudo por pessoas sem médico de família atribuído pelo SNS.

Perante este cenário, o relatório sugere o reforço do papel do farmacêutico no aconselhamento e na toma segura e informada do medicamento, através da criação de um protocolo de apoio à medicação e da disseminação das consultas de reconciliação terapêutica nas farmácias.

A ANF tem promovido a intervenção das farmácias comunitárias em situações clínicas passíveis de tratamento nestes locais, através de protocolos devidamente contratualizados, de forma a mitigar a pressão sobre os cuidados de saúde primários. Aqui incluem-se casos ligeiros de infeção aguda da orofaringe e infeção urinária, através da realização de testes rápidos que permitem não só identificar a causa, como aconselhar e tratar ou, sempre que se justifique, encaminhar para outros níveis de cuidados.

«As pessoas utilizam a farmácia para a apresentação dos seus problemas e, se for possível tratar diretamente, preferem isso do que ter de se deslocar a uma instituição para consulta médica», assegura a presidente da ANF, Ema Paulino, em declarações à TSF.​​

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