Farmácias asseguram apoio à população após cheia deixar Alcácer do Sal sem serviços
Na sequência de uma cheia de dimensões inéditas que deixou Alcácer do Sal sem serviços essenciais, as farmácias da cidade, apesar de também afetadas, garantiram resposta rápida às necessidades da população.
Texto de Ana Rita Cunha | Fotografia de Pedro Loureiro
O relógio marcava 8h30 do dia 9 de março quando a porta da Farmácia Alcacerense, em Alcácer do Sal, voltou a abrir, após mais de um mês encerrada. Mantém-se viva a memória da cheia que, na primeira semana de fevereiro, surpreendeu a equipa e afetou profundamente este espaço centenário. Porém, para a proprietária e diretora técnica, Maria do Carmo Batista, esse momento começa agora a dar lugar a um sentimento de «alívio».
«Este é um dia feliz. Estava ansiosa por recomeçar a trabalhar», afirma, recordando que a expetativa inicial era que a interrupção durasse apenas alguns dias. «Nunca pensámos ficar encerrados tanto tempo. Acreditávamos que no fim de semana a seguir à cheia já conseguiríamos estar a trabalhar».
Contudo, a realidade revelou-se bem distinta. A depressão Leonardo fez subir o nível da água do rio Sado acima do previsto, provocando inundações de dimensões inéditas na cidade, superiores às registadas em 1963. «Ficámos sem farmácias, sem bancos, sem correios, sem mercado, sem serviços nenhuns a funcionar. Em muitos sítios, a água subiu até ao teto. Foi uma razia», recorda.
Situada na zona ribeirinha, a Farmácia Alcacerense sofreu danos «totais». «Ficou praticamente tudo destruído – balcões, armários, cadeiras, secretárias, tudo, tudo, tudo. Apenas foi possível recuperar os armários a partir de uma determinada altura», explica Maria do Carmo Batista, acrescentando que também uma parte significativa do stock foi perdida.
Os trabalhos de limpeza e reparação arrancaram poucos dias depois, com o envolvimento da equipa e o apoio da comunidade, decorrendo em ritmo intenso. «Durante um mês, estivemos aqui todos os dias, a limpar, a reparar, a organizar. Estamos todos de rastos», refere Nuno Batista, técnico de farmácia.
O esforço reflete-se num espaço de atendimento já recuperado, limpo e organizado, que contrasta com a zona de backoffice, onde ainda são visíveis marcas da destruição. «A área de atendimento foi sempre a nossa prioridade, para podermos voltar a atender os nossos utentes», sublinha a proprietária, destacando a importância da reabertura para a comunidade.
Prova disso é a satisfação visível nos rostos de quem entra pela porta envidraçada da Farmácia Alcacerense. «As pessoas estavam desejosas de voltar. Aqui toda a gente se conhece e as pessoas confiam realmente em nós. Somos um ponto de apoio, sobretudo para quem vive sozinho», garante Maria do Carmo Batista. Quem entra, vem não só para aviar a medicação, mas também conversar, partilhar as experiências recentes e recuperar a rotina.
Assim, mais do que o retomar da atividade, a reabertura devolve à população a sensação de «normalidade» há muito perdida. «À medida que os espaços vão reabrindo, sentimos que a normalidade está a regressar. Estamos todos a torcer uns pelos outros», afirma Nuno Batista.
A poucas ruas de distância, o cenário é ainda diferente. Entre escadotes, placas de pladur e sinais evidentes da destruição, decorrem os trabalhos de reparação na Farmácia da Misericórdia, propriedade da Santa Casa da Misericórdia de Alcácer do Sal. «Estamos numa situação complicada. As paredes ficaram degradadas e tanto os móveis como o material informático ficaram destruídos», explica o diretor-geral da Santa Casa da Misericórdia de Alcácer do Sal, Ricardo Cipriano, estimando perdas de cerca de 110 mil euros em stock.
A água turva, «muito fria» e com «um cheiro forte» apoderou-se do espaço, atingindo cerca de um metro e meio de altura. Arrastou medicamentos e produtos das prateleiras, espalhando-os pelos 120 m2 da farmácia. «Fui o primeiro a entrar, e a sensação foi de impotência, de querer salvar o que estava lá dentro e de não conseguir, de ter perdido tudo», recorda.
O encerramento foi inevitável, tornando urgente encontrar uma solução. «A população ficou sem farmácias e com uma urgência a funcionar 24h», explica o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Alcácer do Sal, Manuel Fura Jorge. As farmácias mais próximas situam-se a cerca de 20 km, com acessos dificultados por estradas alagadas e condições meteorológicas adversas.
A resposta passou pela criação de um espaço provisório para assegurar o apoio à população, sobretudo à mais envelhecida. Desde o primeiro dia, o fluxo de utentes tem sido constante. «As pessoas ficaram contentes de abrirmos aqui. Estavam a sentir-se ainda mais perdidas, desesperadas, e notámos desde o início uma grande procura», afirma a diretora técnica, Alexandra Horta.
Neste espaço, a porta mantém-se aberta 24h por dia, com a equipa a assegurar o serviço noturno anteriormente partilhado com a Farmácia Alcacerense. Quatro semanas depois, a exaustão “pesa", mas prevalece o sentido de missão. «Não tem sido fácil. Está a ser cansativo, mas estamos a dar resposta à população e isso é o mais importante», garante Duarte Dimas, técnico de farmácia e presidente da Junta de Freguesia de Santiago, numa das zonas mais afetadas.
Os relatos destas farmácias evidenciam a importância destes espaços nas comunidades, sobretudo em contextos de crise. Perante as adversidades, as equipas das farmácias asseguraram um apoio essencial à população, garantindo o acesso ao medicamento, a continuidade das terapêuticas e o aconselhamento.