Farmácias tornam-se «local de acolhimento» após depressão Kristin
As farmácias em Zerreira do Zêzere, fustigadas pelo mau tempo, mantiveram o apoio à população.
Texto de Ana Rita Cunha | Fotografia de Mário Pereira
À porta da Farmácia Moderna, em Ferreira do Zêzere, uma das zonas mais fustigadas pela depressão Kristin, o cenário é de devastação: árvores derrubadas, postes de eletricidade caídos, destroços empilhados nos quintais. Lá dentro, o sorriso da equipa mantém-se.
«Damos o nosso máximo, porque as pessoas precisam do nosso conforto, das nossas palavras, da nossa simpatia», afirma a diretora técnica adjunta, Catarina Rodrigues. Quem por estes dias procura a farmácia chega «triste, ansioso, revoltado», emoções que acabam por ser partilhadas com a equipa. «É difícil não levarmos isso connosco», reconhece, já que os impactos da tempestade se estendem à vida pessoal e familiar de quem lá trabalha.
Na noite de 27 de janeiro, fortes rajadas de vento arrancaram telhas da casa da proprietária e diretora técnica da Farmácia Moderna, Maria Eduarda Mota. Os painéis solares «voaram» para o quintal do lado e a chaminé ficou destruída. «Foi uma noite horrorosa. A partir das quatro da manhã já ninguém conseguiu dormir. Eram sons estranhos, vento fortíssimo e ouvíamos coisas a cair», recorda.
Mal amanheceu, decidiu abrir a farmácia. Diz que é a sua «missão», mas nada a preparava para o que sentiria ao atravessar a porta que separa a sua casa da farmácia. «Tive vontade de me ir embora, de fechar portas e virar costas a tudo», confessa. Naquele momento, só havia espaço para a «desolação» e o «desespero».
Sem luz, água ou comunicações, a Farmácia Moderna manteve-se aberta, mas ninguém entrou. Só no segundo dia o movimento começou a surgir, já com um gerador a iluminar o espaço. «No total, ficámos 11 dias sem luz, oito sem água e as comunicações ainda hoje não estão totalmente restabelecidas», conta Maria Eduarda Mota. Para preservar os medicamentos que têm de ser mantidos no frigorífico, recorreu às garrafas de água congeladas que costuma ter sempre em casa. «O primeiro dia foi trabalho zero. Depois vieram vários dias difíceis, sempre a lidar com as mesmas necessidades e com uma grande despesa em gasolina para o gerador».
A cerca de dez minutos de distância, o panorama repetia-se na Farmácia Graciosa, no centro da vila. «Foi uma catástrofe. Parecia um cenário de guerra, quase apocalítico», conta o gestor operacional, Rui Mamede. Sem eletricidade, água e comunicações, e com os painéis fotovoltaicos lançados pelo vento para mais de 100 metros, a farmácia funcionou apenas com luz natural.
Ao aproximar-se do local no dia seguinte, temeu pelo pior. «Temos uma árvore grande à entrada que só ficou destruída na copa. Se tivesse sido arrancada pelas raízes, como tantas outras, teria caído em cima da farmácia e destruído tudo. Foi um milagre».
A prioridade foi «retirar os destroços e desimpedir a passagem» para manter o normal funcionamento, segundo a farmacêutica Carina Coelho, a primeira a entrar na Farmácia Graciosa nessa manhã. Nos primeiros dias, receberam casos urgentes e pessoas a aviar a medicação habitual.
«Apesar de não termos eletricidade e de as comunicações terem demorado a ser restabelecidas, nunca fechámos a porta. Mantivemos os medicamentos acessíveis à população, mesmo com a farmácia menos iluminada», garante Rui Mamede. No dia seguinte, conseguiram adquirir um gerador e na noite de dia 31 de janeiro as comunicações começaram a ser restabelecidas gradualmente.
«Quando começou a aparecer um bocadinho de luz, a farmácia tornou-se um verdadeiro local de acolhimento. As pessoas vinham beber café, porque era o único sítio onde conseguiam encontrar uma bebida quente naqueles dias em que nada funcionava, e acabavam por desabafar», recorda Carina Coelho.
Agora, vários dias após a passagem da tempestade e ainda com um rasto de destruição, Ferreira do Zêzere dá pequenos passos em direção à normalidade. A primeira feira semanal desde a intempérie trouxe maior movimento à Farmácia Graciosa.
«Pouco a pouco, percebemos que as pessoas estão a tentar recuperar alguma normalidade, e vir à farmácia é naturalmente parte integrante desse processo», afirma Rui Mamede.
Os testemunhos destas farmácias espelham a realidade vivida por muitas farmácias nas zonas afetadas pelo mau tempo, onde, apesar dos danos significativos e dos constrangimentos registados, se manteve um serviço exemplar à população. Esta resposta só foi possível graças à resiliência, ao profissionalismo e ao profundo sentido de missão das equipas das farmácias, que asseguraram o acesso ao medicamento, a continuidade das terapêuticas e o aconselhamento, reforçando o papel das farmácias como pilar essencial das comunidades, mesmo em contextos de grande exigência e adversidade.