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«Não queria abandonar a população»

​A decisão de encerrar a Farmácia Loureiro foi «uma das mais difíceis» para Amélia Rodrigues.

Texto de Sandra Costa • Foto de Pedro Martins

A proprietária da Farmácia Loureiro, Amélia Rodrigues, fez tudo o que estava ao seu alcance para evitar a falência da sua farmácia, que durante mais de uma década serviu a comunidade de Loureiro e as aldeias vizinhas. Mas a crise económica e a política de austeridade foram fatais para esta pequena farmácia do Interior do país e deixaram ao abandono uma população maioritariamente idosa e carenciada. A história da Farmácia Loureiro é paradigmática dos problemas que continuam a afectar muitas farmácias.

Aos 34 anos, Amélia Rodrigues abriu a sua própria farmácia, na aldeia de Loureiro, a 7 km da cidade onde vivia, Peso da Régua. Estávamos em Outubro de 2000. Amélia tinha experiência em farmácia comunitária e sabia que era o que gostava de fazer. «Fazia todo o sentido eu ter uma farmácia», diz com convicção.

Bem localizada, numa das estradas principais de Loureiro, a farmácia foi tão procurada pelos habitantes que chegou a contar com uma equipa de quatro pessoas. Além da venda de medicamentos, prestava cuidados de saúde primários e aconselhamento, dava apoio ao domicílio, sempre que necessário, e participava activamente na vida da comunidade, organizando actividades de promoção da saúde e bem-estar.

Tudo corria bem e nem Amélia Rodrigues pensava que ia começar a correr mal. Mas correu. O primeiro sinal aconteceu em 2005, quando ouviu anunciar a intenção de vender medicamentos não sujeitos a receita médica em parafarmácias. Teve receio. Seguiram-se as sucessivas alterações legislativas ao negócio farmacêutico: a liberalização da propriedade, a obrigatoriedade de alargamento dos horários de funcionamento, e a baixa de preços de medicamentos, em particular dos genéricos. «Entre 2005 e 2010, houve seis reduções obrigatórias nos preços dos medicamentos. O impacto foi brutal para a capacidade financeira de uma pequena farmácia do Interior, como a minha». Amélia lamenta que as medidas de austeridade não tenham tido em conta o impacto nas microempresas como a dela. 

Também consequência das medidas de austeridade, foi decidido o encerramento do centro de saúde de Loureiro, que funcionava com dois médicos que vinham quatro dias por semana, de manhã ou de tarde. «Foi a machadada final». Na Farmácia Loureiro e no acesso aos cuidados de saúde por parte de toda aquela população. A partir do momento em que as pessoas passaram a ser obrigadas a deslocar-se a Peso da Régua para consultar um médico começaram a aviar as suas receitas na cidade. A Amélia restava vê-los passar. 

A farmacêutica fez o que estava ao seu alcance para reagir. Escreveu cartas ao Presidente da República, ao primeiro-ministro, ao ministro da Saúde, ao director-executivo da Associação de Centros de Saúde do Norte. Nunca obteve resposta. Pediu ajuda à Associação Nacional das Farmácias, de que era associada, e em 2010 fez um curso de gestão na ANF no Porto. «A margem de lucro era inferior aos custos fixos da farmácia. Não era má gestão minha. Simplesmente, a cada dia que eu abria a farmácia tinha prejuízo». 
 
No processo de evitar a falência, deixou de ter salário e acabou por despedir um dos colaboradores. Começou a ser complicado pagar o empréstimo bancário que tinha pedido para a instalação da farmácia e poder cumprir as obrigações para com os fornecedores. Os medicamentos disponíveis para venda começaram a rarear.

Deslocar a farmácia para a cidade era a última opção, porque «não queria abandonar a população». Quando decidiu fazê-lo já era tarde e não conseguiu financiamento. «A banca começou a considerar as farmácias um negócio de risco e aumentou os spreads». Em Janeiro de 2012, encerrou o centro de saúde. Quatro meses mais tarde, a Farmácia Loureiro fechou as portas. Aos 47 anos, Amélia recomeçou do zero. Deixou a Régua e instalou-se com a família em Coimbra. Hoje trabalha na indústria farmacêutica, mas o bichinho da farmácia comunitária permanece. 

A decisão de encerrar a Farmácia Loureiro foi «uma das mais difíceis» da sua vida e ainda hoje lhe faz vir as lágrimas aos olhos. Não consegue evitar a sensação de ter «abandonado a população» e sabe que ficou «a fazer-lhes falta». Não está enganada. Aquela comunidade transmontana continua a recordá-la com carinho e não poupa nos elogios. Sentem falta dos serviços que a farmácia prestava, mas também dos cuidados e atenção da equipa.

O Loureiro continua sem farmácia, apesar dos serviços ali prestados duas manhãs por semana, por iniciativa da Farmácia Moderna, de Peso da Régua. Não chega. 

 

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