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«Nem sempre existem alternativas terapêuticas»

​​​​​​​​​Bastonário anuncia criação de Gabinete da Ordem dos Médicos para monitorizar falhas de medicamentos nos hospitais e nas farmácias.

Texto de Carlos Enes e Carina Machado • Foto de Ricardo Castelo

REVISTA FARMÁCIA PORTUGUESA: Como comenta o facto de os doentes do Interior sofrerem maior impacto da falta de medicamentos?
MIGUEL GUIMARÃES: A situação motiva grande preocupação na sua globalidade, mas mais em particular nos casos em que estamos a aumentar as desigualdades sociais e a não garantir a equidade. Muitas destas zonas já se vêem privadas de vários serviços e é inadmissível que isso se estenda à Saúde. A resposta aos portugueses não pode estar dependente do código postal.

Como é que a Ordem dos Médicos tem acompanhado a evolução das faltas de medicamentos?
Com preocupação, mas também de forma construtiva. As falhas nos stocks ganharam mais expressão na altura da intervenção externa a que o país foi sujeito pela denominada troika e, apesar de ser agora menos falado, a verdade é que o problema está longe de ser ultrapassado.


«Faltas são “areia na engrenagem” e retiram tempo ao médico e ao doente», lamenta o bastonário​

Chegam-lhe relatos de médicos sobre o impacto deste problema na saúde das pessoas? 
Sim, recebemos algumas exposições de médicos e também de doentes sobre falhas no acesso a medicamentos, tanto ao nível hospitalar como nas farmácias de oficina, reportando as dificuldades acrescidas que isso traz aos profissionais já sobrecarregados e aos doentes, sobretudo em momentos de maior fragilidade. Mesmo quando é possível encontrar uma alternativa para o medicamento em falta, a verdade é que esta “areia na engrenagem” retira tempo ao médico e ao doente, e introduz alguma ansiedade nas pessoas, que em nada é benéfica.

A Ordem dos Médicos desenvolveu alguma iniciativa? 
Temos reportado algumas situações mais graves às instituições responsáveis, nomeadamente ao Infarmed. Ainda assim, porque este é um problema grave, que pode colocar em causa a qualidade da relação médico-doente, e o tratamento e a qualidade de vida do doente, a Ordem já decidiu criar um gabinete de apoio ao acesso à inovação terapêutica e tecnológica, que simultaneamente irá acompanhar e denunciar os problemas relacionados com a falta de medicamentos nas farmácias. De resto, vamos também lançar um desafio à Ordem dos Farmacêuticos, à APIFARMA e à ANF, para em conjunto encontrarmos a​​​​​s melhores soluções que permitam resolver de forma sustentada este tipo de situações, que não honram o nosso sistema de saúde.

Que estratégias seguem os médicos para contornar estas questões das faltas? 
Sempre que estamos a par das falhas tentamos ajustar logo a medicação. Mas é bom dizer que nem sempre existem verdadeiras alternativas terapêuticas. Por exemplo, na minha área de especialidade, acontece com frequência a ruptura de stock num medicamento de fim de linha para a disfunção eréctil, o que causa frustração ao médico e ao doente.



É possível falar de um risco para a Saúde Pública?
Felizmente, na grande maioria das situações, não estamos a falar dos chamados medicamentos life saving. Ainda assim, não podemos menosprezar os efeitos negativos que as necessidades de troca ou substituição de medicamentos acarretam, verificando-se mais casos de interrupção ou abandono da terapêutica, complicações e sobredosagens, etc. Tudo isto tem impacto na qualidade de vida do doente, no número de consultas necessárias, ou mesmo nos internamentos evitáveis, que acabam por acontecer. É de salientar, ainda assim, o importante papel que os farmacêuticos assumem, diligenciando contactos directos com o médico assistente do doente e agilizando respostas para os casos mais graves.

E a relação dos doentes com os médicos, como é influenciada?
Os médicos são o principal rosto na prestação de cuidados de saúde e a pessoa a quem os doentes apresentam o seu descontentamento, mesmo perante matérias não relacionadas com a prática clínica. De acordo com os dados, 1,4 milhões de pessoas tiveram de pedir uma nova receita, o que cria uma disfunção nas agendas médicas e eleva o potencial de conflito perante uma situação que seria evitável. Por outro lado, a sobrecarga dos profissionais de saúde, em particular no Serviço Nacional de Saúde, é sobejamente conhecida. Os recursos humanos são insuficientes para a procura e para as necessidades e, mesmo assim, os profissionais têm também mais tarefas burocráticas a cumprir e sistemas informáticos com muitas falhas. Desta forma, repetir uma consulta para ajustar medicação ou o desdobramento em contactos telefónicos com os doentes por falhas de stock, retiram tempo que seria essencial para resolver outras situações clínicas.

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