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António Arnaut: Um homem intacto

​​​​​​​​​​​O romance Rio de Sombras é um dos trinta livros escritos por António Arnaut. A história é ficcional,​ mas inclui vários elementos da passagem do fundador do SNS pela política.

Texto de Carlos Enes • Foto de Carla Bessa

«Sempre houve homens que não se bandearam nem perverteram, conservando, intactos, a alma e o carácter». O advogado Ademar Lopes deve ter pesado cada uma das palavras como se fossem pedras firmes. «O que importa são esses e não os outros. A democracia vive dessa minoria, dessa elite», argumentou ainda. Não estava em alegações no tribunal, mas a tentar a causa mais difícil: convencer o amigo Afonso Mendonça a regressar à política. O apelo foi dramático e a resposta negativa, mas sentida. «Ficar fora da política não significa renunciar aos nossos valores. Pelo contrário, significa que os quero aplicar aqui, no concreto, em contacto com o povo. Aqui sei que sou útil», declara o jovem clínico-geral. 

Para o médico de província, que havia sido deputado pelo PS na Assembleia Constituinte, tratar os doentes e «intervir civicamente» pela palavra seriam as suas novas formas de fazer política. Animava-o o exemplo do director do centro de saúde. «Só pelo SNS valeu a pena o 25 de Abril», costumava dizer o doutor Américo. E este “só” era quase tudo. «E pela liberdade» - respondia Afonso - «foi o que ficou, por enquanto». Afonso e Américo, antes da Revolução, já atendiam de borla a maioria dos doentes, gente pobre do campo. Com o SNS, passaram a poder fazê-lo «sem a humilhação de dar uma esmola aos que não podem pagar». Os dois exercem em dedicação exclusiva e não têm mãos a medir.

O romance Rio de Sombras (Coimbra Editora, 2007) é o testamento político de António Arnaut. Está escrito com o sangue de muitas feridas desse capítulo de vida. O carreirismo, a corrupção, o tráfico de influências, a intriga, a funcionalização dos deputados, a traição pura e dura, fenómenos com os quais Afonso Mendonça se recusa a conviver. Para regressar, «teria de transigir com muita porcaria». O deputado que comprou o lugar por uma centena de contos, os discursos plagiados e vazios, o empreiteiro feito com o presidente da câmara e o líder da oposição, o concurso de encomenda para o financiador do partido, jornalistas a soldo e ciladas montadas com prostitutas entre camaradas. «Toda a baixeza moral me repugna», grita o médico, na cara de um militante do PCP que lhe quis revistar o carro nos tempos do PREC. Mal sabia ele que tornaria muitas vezes a sentir esse nojo.

António Arnaut já publicou três dezenas de livros de ficção, poesia, ensaio e intervenção cívica. Também se sente no Rio de Sombras a força, impressionante, dos valores que lhe aquecem a alma como a luz do Sol. A defesa da dignidade de todos os cidadãos e do próprio carácter iluminam-no, na obra como na vida. «Não contavam com a minha firmeza», diz Afonso Mendonça no livro. Sente-se que é António Arnaut a responder a quem ousou tentar desviá-lo do caminho. O SNS, por exemplo, esteve quase para ir parar à gaveta, mas estava lá ele. «Foi um acto de irrazoável teimosia», escreveu Constantino Sakellarides. Mas António Arnaut «soube entender o país que nos estava sonhando».

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