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Nuno, judoca do telefone

​​​​​Tem bom ouvido para os utentes e é indispensável no armazém da farmácia.

Texto de Maria João Veloso • Foto de Ricardo Castelo

Farmácia d’Arrábida ​ Vila Nova de Gaia

É através do ar que respira que Nuno André Rocha se dá conta de que chegou a uma nova cidade. «Quando viajo oiço o barulho que me rodeia. O facto de olhar para o céu e ele estar mais escuro, ou mais limpo, dá-me as coordenadas para me ambientar ao novo lugar. O cheiro ajuda-me a distinguir o que vou a pisar».

O facto de ter nascido com um glaucoma agravado no olho esquer​​do e só ter 30 por cento de visão no olho direito faz este jovem tirar todo o partido dos outros quatro sentidos. Telefonista na Farmácia d'Arrábida – das nove às 18 horas – no shopping com o mesmo nome, Nuno é também judoca paraolímpico, treinando com afinco cinco dias por semana, das 20h às 22h. Esta modalidade já o levou à Alemanha, ao Cazaquistão e à Turquia, sempre a representar Portugal.

Na farmácia, despe a personagem de cinturão azul e está sempre disposto a dar uma mãozinha aos colegas. A directora-técnica, Adelaide Silva, às​ vezes tem de moderar essa tendência, porque já ninguém se lembra que ele tem uma incapacidade. «Os colegas esquecem-se disso e pedem-lhe para ir ajudar o cliente a levar os sacos ao carro. Ora, ele precisa das mãos livres, de ter todas as capacidades que lhe sobram activas». Só que o Nuno quer sentir-se útil e está sempre pronto para ajudar. Não é defeito, é feitio.​​

Foi contratado para o atendimento telefónico, mas agora é indispensável no armazém da farmácia
Victor Valdrez, o proprietário, conta que, antes de o contratar, os utentes se queixavam de que o atendimento telefónico era muito demorado. Muitos até insinuavam que o telefone estaria avariado. Para resolver o problema, um amigo sugeriu que telefonasse para a ACAPO – Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal. Ele era industrial, já tinha recrutado seis invisuais para a sua fábrica e todos se revelaram competentes.

Naqueles dias, Nuno estava a acabar na ACAPO uma formação de assistente administrativo. Aprendeu competências de atendimento telefónico e presencial. Ensinaram-lhe formas de comunicação para lidar com as pessoas. «No fundo, estavam a preparar-nos para o mundo do trabalho», recorda. Por melhor preparação, confessa que foi ali mesmo, com a farmácia cheia, que aprendeu realmente o que é trabalhar a sério.​

Nos primeiros dias, quando o telefone tocava era um sobressalto. «Ficava muito nervoso, começava a tremer». Os colegas ajudaram-no muito a adaptar-se, com indicações preciosas. «Demos-lhe dicas das personalidades de alguns utentes. Por exemplo, temos o caso de uma senhora que gosta de estar uma hora ao telefone. Até já anotámos o número dela, para ver quem tem disponibilidade quando é ela a ligar», conta Adelaide Silva.

Nuno Rocha tem bom ouvido para quem precisa de afecto e companhia. «O que gosto mais de fazer é de atender o telefone», garante. Por causa das constantes falhas de mercado, muitos utentes ligam a perguntar se determinados medicamentos estão ou não disponíveis. Fazem reservas. Ele resolve todo esse expediente. Só quando querem esclarecer dúvidas técnicas é que passa as chamadas a um farmacêutico.


Nuno Rocha tem bom ouvido para os utentes que só precisam de afecto e companhia

Graças à força de vontade faz tarefas que pareceriam impensáveis para alguém com a sua condição, como marcar e etiquetar produtos. «Aumento a imagem do programa onde os meus colegas trabalham e assim já consigo ver» explica. Enquanto o multifacetado telefonista consegue etiquetar referências, lê-las através do leitor óptico e dá-las para arrumação, está, como ele diz, «a aliviar a carga» dos colegas, que ficam com mais disponibilidade para o atendimento ao balcão.


Apesar das limitações severas de visão, consegue etiquetar produtos, fazendo zoom no ecrã do computador

«Confesso que, inicialmente, pensei: O que vem um invisual fazer para aqui? Como vamos encaixá-lo?», relata a directora-técnica, feliz porque este colaborador, especial a todos os níveis, «ultrapassou todas as expectativas». O proprietário, por sua vez, irritava-se com o telefone a tocar sem resposta. «Ele encaixou perfeitamente, mas quis ir além da sua função e por iniciativa própria começou a arrumar e até a fazer recados», explica Victor Valdrez.  Até ao fim do ano, Nuno ficará também responsável pelo robô da farmácia.

Nuno é um exemplo para todos. «Não é lamechas, não gosta de ser coitadinho», adverte Adelaide. Antes pelo contrário, ele brinca com a própria deficiência. Como tem um sentido de humor fabuloso, dá espaço aos colegas para fazerem piadas. Quando algum deles não encontra qualquer coisa que está mesmo ali à frente do nariz, há outro que graceja: «até o Nuno viu isso». Ele defende-os de imediato: «É verdade que eles brincam, mas no momento seguinte estão a ajudar-me. Não fazem por maldade». Ele também brinca e acaba muitas vezes as frases com esta deixa: «Depois eu é que sou cego».​



A farmacêutica Sofia Pereira agradece a Nuno Rocha tê-la despertado para as dificuldades que estas pessoas têm no dia-a-dia. Puxa muito por ele e ele acha-a a pessoa mais energética da farmácia. Quando se cruzam grita-lhe «festa, festa». Chama-lhe “guna” (rufia), por causa das músicas que ouve e da forma como põe o boné de lado. «Mas ele é um bom menino, porta-se bem», contesta Adelaide, com candura.

Com porte atlético e a juventude estampada num rosto com 25 anos de vida, Nuno está como quer, a contribuir activamente para a sociedade. «Nunca gostei de estudar. Terminei o 12.º ano porque era o que me competia. Quis terminar a escolaridade, arranjar emprego, fazer o IRS e pagar as minhas contas». Ficar em casa à espera de rendimentos e subsídios não era com ele. Só é cego quem não quer ver.

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