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O anjo da guarda de Campanhã

​​​​​​​A Farmácia é uma instituição de saúde e solidariedade social do bairro do Cerco.

Texto de Irina Fernandes • Foto de Ricardo Meireles

Farmácia Vitória - Bairro do Cerco, Porto

Maria Helena, 87 anos, enrola a linha branca à volta do dedo indicador. Ajeita ao seu gosto o novelo e finaliza mais um ponto. «Estou a preparar uma toalha para a cozinha», revela, dando a conhecer a sua obra. «Há dias fiz uma coberta de dois metros e meio, agora é esta toalha de 20 quadrados. Faço renda há muito tempo, mas também sei contornar tapetes, fazer meias... Faço o que me pedem». Trabalha sentada numa das duas cadeiras pretas disponíveis à entrada.

É aqui que fica. De segunda a sábado. De Janeiro a Dezembro. Sempre acompanhada do seu saco de papel. «De manhã estou sempre a ver quando chega a hora de poder vir para cá. Fico até a farmácia fechar. Mas, atenção, fico porque quero!». Na Farmácia Vitória, Maria Helena encontrou sossego para as rendas e para o coração. Entre o olhar atento de Rui Manuel Romero, 52 anos, director-técnico, o sorriso doce de Luís Soares, 46 anos, farmacêutico-adjunto, e a simpatia de toda a equipa, reencontrou o que a vida lhe foi sugando: laços de família, carinho, conforto. «Mais vale estar aqui do que estar em casa. Muitas vezes, eles têm mais paciência comigo do que a minha família. Para mim, esta farmácia é a minha casa até eu ir para o Céu ou para onde Deus me quiser levar».

Situada no bairro do Cerco, em Campanhã, concelho do Porto, numa zona «muito pobre», onde a população vive com grandes necessidades, a Farmácia Vitória vai muito além dos tradicionais serviços de aconselhamento farmacêutico e de dispensa de medicamentos e produtos de bem-estar. Aproxima-se. Ouve. Cuida. «Esta é, de facto, uma farmácia especial, porque estamos a falar de utentes com carências sociais, informativas e económicas», sublinha o director-técnico. «O nosso utente tem elevado grau de iliteracia, é reformado, velhote e com falta de tudo: desde carinho ao mais básico da vida». A dispensa de medicamentos a fiado tornou-se, assim, prática diária. «Tentamos fazer o mais possível para ajudar os nossos utentes economicamente. Indicamos sempre os medicamentos mais baratos e fazemos vendas a crédito. Permitimos às pessoas virem pagar quando recebem o salário ou a reforma».

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Maria Oliveira, 74 anos, frequenta a Farmácia Vitória desde criança

Os olhos de Maria Oliveira, 74 anos, reluzem ao falar daquela que é, desde criança, a sua farmácia. «Sempre cá vim. Os doutores são pessoas muito boas e dão facilidade de pagamento ao fim do mês. Para quem é pobre e recebe reformas baixinhas, é uma grande ajuda», elogia a antiga empregada fabril. Para ela, a Farmácia Vitória é um lugar especial. «Quando entro aqui na farmácia sinto-me noutro mundo. Eles são tão bons a atender, conversam muito connosco. E no Natal dão-nos sempre qualquer coisa e isso faz-nos sentir acarinhados».

Também Álvaro Cardoso, 55 anos, morador no bairro do Cerco há dois anos, se mostra grato pela forma cuidada com que sempre foi atendido e especialmente na hora de pagar. «Às vezes, uma pessoa tem um mês ou outro mais aflito e eles facilitam. A pessoa paga quando pode.
Ajuda muito na nossa vida eles facilitarem o pagamento». Os pedidos para dosear o pagamento são «muitos», admite Rui Manuel Romero. «Como disse, esta é uma farmácia diferente. É como ir no princípio do mês ao supermercado e no resto dos dias ir à mercearia, porque lá têm "o livro" e vendem fiado». Já chegou a assumir custos por contra própria, como no caso de uma mulher do bairro a quem apareceu um carcinoma oral, que a atingiu na boca e na língua. «Não lhe faltou nada», recorda o farmacêutico.

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Rui Manuel Romero, 52 anos, director-técnico​

Rui Manuel Romero tem multiplicado sorrisos no bairro. «Sei que a ajuda que damos aqui na farmácia permite a muitas pessoas pôr comida na mesa ou roupa no corpo. Isso, de facto, sei que acontece muitas vezes». Na rua, passa um jovem vagabundo, com aspecto sujo e a roupa toda rota. «Está a ver aquele rapaz? Alguma vez viu isto na cidade do Porto? É um perdido no mundo, vive num canto qualquer… O que se vê aqui é bem diferente do centro da cidade, que está cheio de turistas e reconstrução», frisa indignado.

Até hoje, Maria Helena é «muito grata ao doutor Rui», que a ajudou quando esteve doente. «Foi um santo! Eu tive um problema muito grande e ele fez tudo o que pôde, juntamente com o médico da Caixa. É um bom farmacêutico e tem o coração aberto para toda a gente. Há poucos como ele…». Atrás do balcão, Luís Soares também pratica os valores da confiança e da proximidade. «Eu digo sempre: Só se não puder é que eu não faço». Na farmácia não se distingue nenhum utente pela sua condição nem problemas, como por exemplo a droga. «Aqui, quase toda a gente tem um neto ou um filho que foi, ou ainda é, toxicodependente».

A farmácia aderiu ao programa de troca de seringas. A decisão foi óbvia. «Estamos sempre abertos a qualquer coisa que possa ajudar os utentes», expõe o farmacêutico- adjunto. A junta de freguesia também financia alguns utentes na compra de medicamentos.

Com alvará datado de 4 de Abril de 1944, a Farmácia Vitória ergueu-se pela mão de Cacilda Araújo Correia, agora com 80 anos. «Ela ainda cá costuma vir, hoje não quis», diz Rui Manuel Romero. Primeira farmacêutica na família, a fundadora compra o espaço a 15 de Junho de 1969. O legado de família levaria Rui Manuel Romero a dedicar-se à mesma actividade. «Lembro-me de em miúdo passar muito tempo na farmácia, que ficava ali 50 metros mais a baixo. Só mudámos para aqui em 1990. Eu abracei isto mais por arrasto do que por vontade». 

A farmácia já se chamava Vitória quando Cacilda Correia a adquiriu. Manteve-lhe o nome, porque «para ela foi uma vitória comprá-la», explica o director-técnico. Por outro lado, é o nome certo, tendo em conta a missão da farmácia em Campanhã. «O que tentamos fazer aqui é uma vitória do bem».

 

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