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O coração nos olhos

​​​​​​​​No pico da pandemia, nada faltou aos utentes da Farmácia Sália.​

Texto de Carina Machado • Foto de Pedro Loureiro

Rui Farinho está convencido de que a COVID-19 o mudou. Não foi infectado: «fui afectado, no temperamento». Aos 78 anos, o antigo trabalhador bancário, ex-doente oncológico, reclama-se roubado em tempo, numa altura da vida em que sente que ele já não abunda. Fala, melancolicamente, da paixão que partilha com a mulher pela música, o teatro, o cinema… que agora parecem amores platónicos. «Íamos ao cinema umas 40 vezes por ano. Concertos clássicos, música sacra, dias da música… Lisboa é perto de Setúbal, um tirinho e estávamos em todos». Em Fevereiro de 2020, a vida parou. «Nunca mais fomos a lado nenhum. Isto muda ou não muda o mood de cada um? O medo apodera-se da gente e passamos a ser diferentes, quer queiramos quer não».


«Não fui infectado. Eu fui afectado pela pandemia, no temperamento», lamenta Rui Farinho, 78 anos

À Farmácia Sália agradece a «frente de combate» que fez à COVID-19 e o apoio dado aos utentes nas trincheiras. «Não precisei de me preocupar com os medicamentos e nunca nos faltaram com outros cuidados. Nem com o champô que uso no cabelito há 30 anos!», ri-se. Mas não tarda a passar-lhe uma sombra nos olhos, quando confidencia ter gravada na memória a imagem das portas fechadas, «e eles lá dentro, todos equipados, a dizer-me adeus».


«Estávamos habituados a receber os nossos clientes com um sorriso e de braços abertos», recordam, com saudades, Isabel e Sália Tiago

A Sália foi a primeira farmácia em Setúbal a vedar o acesso ao interior. «Recordo-me vivamente desse dia. Foi duro». Isabel Tiago, farmacêutica-adjunta, fala de um trauma ainda demasiado presente. «Estávamos habituados a receber os nossos clientes com um sorriso e de braços abertos. Saíamos detrás do balcão e íamos buscá-los, com um abraço, à zona de espera». Tudo isso acabou subitamente.


No confinamento, muitas pessoas continuaram a ir sentar-se em frente à farmácia, para combater a solidão

Houve quem, inicialmente, se sentisse repelido, mesmo ofendido pelo distanciamento. Não foi simples fazer entender que era a segurança de todos que estava em causa. A comunicação social repetia apelos para as pessoas ficarem em casa, mas na rua formavam-se extensas filas de gente. A ansiedade apoderou-se da população. Apesar disso, a solidão venceu muitas vezes o medo. «Mesmo quando a maioria finalmente percebeu que tinha de se reservar, algumas pessoas continuaram a vir sentar-se em frente à farmácia, nos bancos da praça, porque aquele era o seu único momento de “socializar”», conta Isabel. Em Março de 2020, a realidade superou os saudosos filmes do casal Farinho.

Entre paredes, a prioridade máxima era a segurança. Toda a logística interna foi alterada. A equipa foi dividida em duas, que se revezavam a cada quinzena. A rotatividade de horários aumentou, para combater o stress causado pelo atendimento. Felizmente, nunca faltaram máscaras e álcool. Os testes a todos os colaboradores tornaram-se uma rotina. Ainda assim, a tensão era palpável. «Somos humanos. Não somos invulneráveis ao medo», comenta a farmacêutica. A equipa sentiu muitas vezes necessidade de se juntar antes do trabalho: «só para nos encorajarmos, sermos a força uns dos outros». Acredita que, na altura, isso fez a diferença, mas o balanço expõe marcas profundas. Hoje, das 27 pessoas que iniciaram este processo só 14 se mantêm. «Não aguentaram a pressão e seguiram outros caminhos que não o da Farmácia Comunitária», lamenta a directora-técnica, Sália Tiago.

Os confinamentos foram terríveis, tornaram os primeiros tempos de serviço um autêntico pandemónio. Repentinamente, as filas presenciais transferiram-se para os telefones e depois para todos os meios de mensagem disponíveis. Choviam encomendas de medicamentos e dúvidas sobre o vírus, a doença, o que fazer. «Recebíamos pedidos de apoio em catadupa», recorda a directora-técnica, sublinhando «o abandono» a que as pessoas se sentiam votadas. Muitos centros de saúde fecharam portas. O acesso aos médicos era uma missão quase impossível. A farmácia tornou-se um centro de comunicações. «Estávamos num telefone e na central víamos as outras chamadas a passar. Mas, naquele momento, a pessoa que tínhamos em linha era a mais importante de todas. Tínhamos de dar as respostas. Foi a nossa forma de assegurar a quem estava do outro lado que não estava sozinho, que tinha em nós um suporte». Farmacêuticos e ajudantes-técnicos partilharam os seus números pessoais para facilitar o acesso à farmácia. «Tivemos de nos reinventar. 
Ensinámos muitos dos nossos clientes a tirar fotografias com o telemóvel, a instalar aplicações para não gastarem dinheiro nas mensagens. Chegavam-nos imagens de lesões na pele, de problemas nas unhas. Enviavam-nos os relatórios das análises para que os pudéssemos ajudar, porque não conseguiam falar com os médicos. Fazíamos a ponte, quando não éramos nós próprios a identificar primeiro os problemas. Infecções urinárias, por exemplo, foram muitas».


«Era só telefonar e eles entregavam-me os medicamentos em casa», conta Lucindo Zegre, diabético

Lucindo Zegre, 65 anos, atesta a atenção. É diabético do tipo 2, mas confessa ter preferido esquecer-se da sua condição. A preocupação com a mulher, doente cardíaca grave, consumiu-lhe o ânimo. Ainda hoje a esposa se recusa a sair de casa ou sequer a aceitar visitas além do filho. Sobrevive no pânico de não sobreviver à pandemia. Lucindo sabe que há cuidados que deveria ter tido e pelos quais poderá ter de vir a pagar, «mas estava fora de questão sair e expor-me à possibilidade de levar o vírus para dentro de casa». Fez sempre a medicação. «Era só telefonar e eles entregavam em casa». Na farmácia todos o conhecem, assim como à sua condição. «Estão a par dos nossos problemas e da sua evolução. São o meu apoio em momentos de necessidade. As minhas dúvidas sempre as esclareci aqui e nas piores fases da pandemia isso não me faltou. Costumo dizer que aqui é o meu centro de saúde», afirma Lucindo Zegre.

«O acompanhamento de doentes crónicos passou a ser central na farmácia», conta a directora-técnica. O aconselhamento farmacêutico procurou compensar a falta de acesso aos centros de saúde. «Os nossos clientes continuaram a saber o que é que estavam a tomar e porquê, como o deviam fazer e os cuidados a ter. Tivemos a preocupação de os aconselhar sobre os tempos necessários de exposição solar, a importância do consumo de legumes frescos», expõe Sália Tiago.


As origens da Farmácia Sália remontam a 1867

A reabertura das instalações ao público foi um momento de grande alegria. «Depois de um isolamento tão prolongado, é fundamental que as pessoas sintam que este é um ambiente feliz». Nas farmácias, como em todos os serviços de saúde, a máscara continua a ser obrigatória. «Andamos de boca tapada? Passamos o sorriso para os olhos», assegura a directora-técnica.

Esperavam um regresso dos utentes em enxurrada, mas tal não aconteceu. As pessoas continuaram em casa. O serviço de preparação individualizada da medicação conheceu uma grande expansão, porque foram os cuidadores – filhos e netos – quem começou por aparecer. Muitos mostraram-se surpreendidos. «Como é que sabem quais são os medicamentos que o meu avô toma? Como é que sabem que eu, neta, estou na faculdade?». Apesar do insólito, formaram-se laços.


José Rosado vacina-se na farmácia, onde vigia o pé diabético e a hipertensão

José Rosado, 75 anos, diabético e hipertenso, habituou-se a recorrer à farmácia quando tem problemas. «Há dias passei pelo centro de saúde e palavra de honra que havia uma fila de quase 200 pessoas», queixa-se. Faz aqui a consulta do pé diabético, o programa da hipertensão e todas as vacinas. Foi na farmácia que descobriu que estava infectado com o SARS-CoV-2. «A minha mulher fez um teste rápido aqui, deu positivo, e a doutora Isabel, preocupada, pediu logo que eu me viesse testar. Estava positivo também. Tive muito medo», relata o antigo operador de sistemas informáticos. Não houve «um dia sequer» em que a farmácia lhe faltasse com o telefonema a saber como estava. «Não há o que pague isto!», considera o septuagenário.


Os testes de antigénio são um serviço farmacêutico muito procurado por crianças, com o regresso das aulas

Os testes de antigénio são um serviço que veio para ficar. A experiência adquirida no último ano facilita muito as recolhas com zaragatoa. As relações de confiança com as famílias ajudam as crianças a passar por esse momento de stress. É o caso de Guilherme, de 11 anos. Vem testar-se pela mão da mãe, que é recebida como uma amiga pela farmacêutica. «Acho que vamos conviver com esta realidade durante mais algum tempo. Que continuemos a passar amor, ainda que pelos olhos», despede-se Sália.

 

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