O gestor do doente crónico
Há décadas que nas farmácias se presta cuidados farmacêuticos, da medição da tensão arterial à troca de seringas. Actualmente, o foco está na capacitação dos doentes.
Texto de Mário Beja Santos (Técnico de Defesa do Consumidor)
Quando atingirem uma idade mais avançada, as gerações hoje mais jovens terão de fazer face a riscos acrescidos de desigualdade em relação aos reformados actuais. Não se trata de sensacionalismo. A informação consta de um relatório da OCDE publicado no final de 2017, intitulado “Preventing Ageing Unequally”.
A idade será vivida de uma maneira radicalmente diferente pelas gerações nascidas a partir de 1960. O aumento da esperança de vida, a diminuição do número de elementos do agregado familiar, o aumento das desigualdades ao longo da vida activa e das reformas levarão à diminuição do valor das pensões, e alguns grupos serão confrontados com um risco elevado de pobreza durante a velhice. Nada disto é verdadeiramente novo, consta de inúmeras previsões, elaboradas por instituições sérias.
Aqueles com menor poder de compra tratam-se muitas vezes mal, tal como acontece com os que não dispõem de literacia em saúde e os que falham na adesão à terapêutica.
Num quadro demográfico onde estamos cada vez mais velhos, temos mais doenças crónicas e estamos sujeitos a diferentes morbilidades, crescem os programas em que os farmacêuticos acompanham doentes crónicos, seja em caso de introdução de novas terapêuticas, seja num quadro de doença, de que é exemplo a asma. Referencio o Reino Unido, a Irlanda, a Noruega, a Dinamarca, a Espanha, a Bélgica e a França como apenas alguns dos países onde decorrem experiências neste âmbito, e sublinho que se espera desta intervenção, promotora do uso correcto e esclarecido dos medicamentos, que possa também diminuir o volume do desperdício e dos gastos em saúde.
Este novo quadro de cuidados farmacêuticos implica igualmente uma coordenação com diferentes serviços e profissionais de saúde, onde se destacam o médico de família ou especialista, assim como uma partilha de registos de saúde, os quais podem a qualquer momento ser analisados por qualquer uma das partes competentes e interessadas, sempre com a garantia absoluta da protecção dos dados.
Vários estudos independentes evidenciam que a relação entre uma melhor gestão da doença crónica, uma maior literacia do doente e uma adequada adesão terapêutica reduz as admissões hospitalares, os entupimentos das urgências e o agravamento das doenças. Estou, por isso, absolutamente convicto de que estamos a perder muito em não ingressar rapidamente neste mundo de transformações.