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O melhor que o vírus trouxe

​Daniela Sequeira passou a ter a medicação para a filha a menos de um quilómetro. Antes tinha de fazer 600.

Texto de Sandra Costa

Há ano e meio que Daniela Sequeira lutava contra «o absurdo» de ir de propósito de São Brás de Alportel, onde mora, a Lisboa, todos os meses, só para levantar a medicação para a filha. A Rita tem dez anos, pesa 20 kg e mede 1,21 cm. O problema de crescimento estará relacionado com a prematuridade, a bebé nasceu às 29 semanas. Os médicos do Hospital Don​a Estefânia, onde é seguida, recomendaram a administração diária de uma hormona do​ crescimento injectável. Quando soube que teria de ser ela a percorrer os quase 600 quilómetros do Algarve a Lisboa, ida e volta, para levantar a medicação, Daniela sentiu-se «cabisbaixa, preocupada e triste». «Será que estamos no fim do mundo? Um medicamento destes não pode ser comprado na farmácia? Isto não tem cabimento, parece uma coisa de um país do terceiro mundo», indigna-se.

De três em três meses, quando a Rita tem consulta médica, vai a Lisboa com a filha e o marido. Para levantar a medicação, vai sozinha ou então vai o marido. Para pouparem. Ir a Lisboa representa um dia de trabalho perdido, a que acrescem os custos com a alimentação, a viagem de comboio e os táxis. «Este dia custa-nos 200 euros, fora o cansaço e a maçada». O pior de tudo é a incerteza quanto ao stock da farmácia hospitalar. Já chegou a deslocar-se com quatro receitas e voltar com uma caixa, que dá para 20 dias. «Pode imaginar o meu estado de espírito no regresso...», desabafa.



Ao longo destes meses, Daniela investigou alternativas: recorrer aos bombeiros ou a uma transportadora privada, que assegurasse o transporte com temperatura controlada. Nesta altura de pandemia, ao ver chegar ao fim a medicação, telefonou para a farmácia do Hospital Dona​ Estefânia e fez quase um ultimato: «Não tenho condições para ir a Lisboa, como fazemos, a miúda suspende o tratamento?». Indicaram-lhe um telefone e um email através do qual podia expor o problema. Pouco depois explicava ao telefone o que pretendia ao interlocutor do Hospital de São José. Perguntaram-lhe qual a farmácia onde queria receber a medicação. Parecia um milagre, Daniela nem queria acreditar. «Até comentei com as minhas colegas: só vou acreditar nisto quando o medicamento realmente chegar». 

O milagre tem um nome. Chama-se “norma n.º3/2020”, que legalizou a dispensa de medicamentos hospitalares através da farmácia comunitária. Está em vigor desde 19 de Março, com o propósito de evitar deslocações desnecessárias aos serviços de saúde e diminuir o risco de infecção com o novo coronavírus dos doentes mais frágeis. Foi preciso um vírus, ou melhor, o medo dele, para acelerar uma legislação que veio resolver um problema antigo de muitas pessoas com necessidade de medicação crónica. 

O medicamento chegou à Farmácia São Brás ainda antes do prazo previsto. Correu tudo de forma «impecável» e Daniela sente-se contentíssima: «Parece-me um sonho, uma utopia. Depois do que tenho passado…». Falta saber como vai ser o futuro. Daniela deseja «de coração» que esta solução se mantenha. «Não me importo de pagar o serviço, eu pago e fico contente, porque agora gasto 200 euros e perco um dia a tratar do assunto». Vai continuar a lutar para não perder o que já alcançou, garante.

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​​Além de Daniela Sequeira, a Farmácia São Brás está a dispensar medicamentos hospitalares a outra utente. Em Maio, Maria Helena Condinho, doente oncológica, levantou ali pela primeira vez a medicação diária de que precisa para prevenir o aparecimento de novos tumores. Até agora tinha de deslocar-se todos os meses ao Hospital de Faro, a 20 quilómetros de casa. Poupou na deslocação e no tempo de espera, que não costuma ser pouco. Também ela está fã da nova solução de levantamento da medicação hospitalar nas farmácias comunitárias. «É muito mais cómodo!». Gostava que o serviço se mantivesse, mesmo após o fim da pandemia. «Nas minhas deslocações à farmácia do hospital, vi pessoas com dificuldades que vinham de longe, às vezes de transportes públicos. É muito constrangedor. Esta solução é óptima para mim e muitas outras pessoas», afirma.  

Jorge Santos, proprietário há 27 anos da farmácia serrana, partilha da mesma opinião e está disponível para manter este serviço à comunidade. O director-técnico explica que a farmácia aderiu de imediato, informou-se sobre os procedimentos e criou as condições necessárias para garantir a melhor resposta. «Tudo tem corrido bem», assegura. Agora é continuar. «Não tem lógica a pessoa ter de deslocar-se ao hospital para ter a sua medicação. É um acréscimo de trabalho desnecessário para o hospital e horas perdidas para a pessoa, que muitas vezes tem de faltar ao trabalho. Na farmácia tem os medicamentos em minutos». 

Farmacêuticos disponíveis e utentes satisfeitos. O consenso parece reunido para que a medicação hospitalar continue, no futuro, a ser disponibilizada nas farmácias comunitárias. A seu tempo, o aval governamental pode fazer com que esta medida seja um dos frutos positivos nascidos da resposta portuguesa à pandemia de COVID-19.  

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