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Onde o vinho brota da pedra

​​​​​​​Muros de pedras negras formam currais onde o milagre acontece.

Texto de Irina Fernandes • Foto de Miguel Ribeiro Fernandes

No horizonte, nuvens esguias dançam à volta da Montanha do Pico. O dia está cinzento e só as aves marinhas se fazem ouvir. No Lajido da Criação Velha, concelho da Madalena, a paisagem é labiríntica. Muros de pedras negras, empilhados meticulosamente, dão forma a currais. Aqui, todos os anos acontece o inesperado: do chão de pedra basáltica nascem folhas de videira.

A história das vinhas da ilha do Pico remonta a 1427, quando os primeiros povoadores chegaram ao arquipélago dos Açores. Frei Pedro Gigante, pároco da primeira comunidade da ilha, foi o mentor do cultivo das videiras originais, no final do séc. XV. Logo às primeiras colheitas, o verdelho do Pico ganhou fama internacional, nomeadamente em Inglaterra e no Vaticano. Também há referências históricas de ter sido degustado à mesa dos czares da Rússia.

O visionário Frei Gigante continua, nos dias de hoje, bem vivo nos rótulos das garrafas: é uma das marcas de vinho branco mais prestigiadas dos Açores. Está bem acompanhado. Todos os anos nascem na ilha o Lajido, vinho de cor amarelo-dourado, o Terras de Lava, de aroma frutado, o Basalto, com aroma a frutos vermelhos, e o famoso vinho licoroso Czar. Em 1994, a excelência das castas Arinto, Verdelho e Terrantez permitiu a criação da Região Demarcada do Pico. A ilha aposta ainda na produção de licores, de funcho, jeropiga ou tangerina.



Dez anos depois, chegou o reconhecimento internacional. A UNESCO elevou a Património da Humanidade a Paisagem da Cultura da Vinha do Pico. A certificação é um reconhecimento à riqueza geológica e paisagística daquele lugar. Acima de tudo, presta tributo ao trabalho árduo do povo picoense, que desafia há séculos a infertilidade dos solos. «Se a camada pedregosa engrossava demasiado, escavavam buracos de quinze a vinte palmos de fundo por sete a dez de boca – e lá muito em baixo plantavam a videira», contava o escritor açoriano Dias de Melo, no romance "Pedras Negras", de 1964.

A farmacêutica Susana Vasconcelos, 36 anos, sorri – com vaidade – ao falar dos vinhos da ilha. «A frescura a acidez, aliada ao sal vindo do mar e às uvas, tornam o nosso vinho altamente gastronómico». O calor absorvido e devolvido pelo basalto às videiras, por altura da maturação do cacho, torna-o rico em açúcares, chegando a atingir 14 ou 15 graus de álcool. Já em 1926 o escritor Raul Brandão se rendeu ao sabor do vinho do Pico, deixando as suas notas de prova no livro “As Ilhas Desconhecidas”:

«A vinha tem fama no mundo. O vinho branco do Pico, feito de verdelho e criado na lava, é um líquido com um pique amargo, cor de âmbar e que parece fogo».

A cultura do vinho deixou outras marcas gravadas na pedra. Para facilitar o embarque das barricas, em barcos que seguiam para o Faial ou o estrangeiro, os picarotos escavaram rampas em rochas junto ao mar. As “rola-pipas” atraem hoje muitos curiosos a qualquer hora do dia. «É incrível como estas marcas ainda perduram na rocha», suspira a farmacêutica.

Por falar em passado, o Pico só surgiu há 300 mil anos.

É a ilha mais jovem do arquipélago. O vulcão que lhe deu origem deixou à superfície uma área de 447 km2, com um perímetro costeiro de 126 km. É a segunda maior ilha dos Açores. Nas alturas, o vulcão não se deixou ultrapassar. O “Piquinho” é o ponto mais alto de Portugal: 2.351 metros acima do nível do mar.

Erupções vulcânicas, sismos e ciclones marcaram profundamente – e dramaticamente – a vida dos picarotos. Como se não bastassem as catástrofes naturais, em 1852 uma praga de oídio arrasou as cepas de vinha. Destruído o sustento da terra, muitos homens emigraram para os EUA em busca de trabalho, outros fizeram-se ao mar em botes a remos.​



Em meados do século XIX, a caça à baleia tornou-se a principal actividade económica. Era mais do que um ofício: enchia os homens de coragem, alimentava-lhes os sonhos e dava-lhes esperança. «Não se consegue explicar porquê, mas é dos ilhéus que saem os melhores caçadores de baleias», elogiava Herman Melville, no mítico romance “Moby Dick”, de 1851.

Depois de capturados e trazidos para terra, baleias e cachalotes eram sujeitos a processos de transformação sem limites. Tudo era aproveitado. A carne dos grandes cetáceos era derretida em caldeiras para extrair óleo, que servia para fazer velas, sabão ou margarinas. Já os ossos eram transformados em pentes, espelhos e objectos de artesanato. Quando moídos, davam origem a farinhas para alimentar os animais e fertilizar a terra. A indústria baleeira exportava óleos, farinhas e âmbar, a secreção biliar da baleia. O âmbar era muito requisitado pela indústria dos perfumes. Atingia grande valor comercial e por isso era apelidado de "ouro flutuante" pelos marinheiros.

A baleação foi proibida em 1986, com a entrada de Portugal na CEE, mas também ela perdura na memória colectiva. A comunidade ainda hoje respeita como heróis os homens que se faziam ao mar à caça dos grandes cetáceos. «A vila das Lajes do Pico foi e sempre será terra baleeira», expõe a farmacêutica. Todos os anos, em Agosto, se enche de cor na Semana dos Baleeiros, por ocasião das cerimónias religiosas em honra de Nossa Senhora de Lourdes. Há regatas e provas de perícia com os antigos botes baleeiros.


Dois museus perpetuam a memória da época da caça às baleias

Dois museus procuram perpetuar as memórias daquela época. O mais visitado é o Museu dos Baleeiros, nas Lajes do Pico. Especializado na baleação costeira, exibe «um acervo único em Portugal e raro na Europa», expõe Susana Vasconcelos. Já em São Roque do Pico encontramos o Museu da Indústria Baleeira, onde é possível «conhecer toda a história relacionada com o arrastar e o desmanchar da baleia», descreve a farmacêutica da Farmácia Picoense. Foi ainda erguido um Monumento ao Baleeiro, com versos do poeta Almeida Firmino:

«Ancoradouro de aves, poetas e baleeiros
Heróis sem nome com um pé em terra e outro no mar
quantas vezes em vão a balear…»

Os grandes cetáceos são agora perseguidos por turistas. Nos Açores, é possível observar mais de vinte espécies, residentes ou migratórias. Crianças e adultos fazem excursões ao mar para observar baleias e cachalotes, ou mesmo para nadar ao lado dos golfinhos.​



A gastronomia é outra das âncoras do turismo. O queijo, fabricado com leite de vaca cru e de consistência cremosa, é muito conhecido. À mesa, desfilam iguarias sem fim. «Vivemos numa ilha e, por isso, temos a vantagem de poder ter acesso a produtos frescos, como peixe e marisco», explica Susana Vasconcelos. «Se forem apreciadores como eu, experimentem o polvo à lagareiro. Não se vão arrepender», desafia a farmacêutica.


O Moinho do Frade, impecavelmente recuperado, é um soberbo miradouro

Cercada pelo reticulado de muros de pedra, a profissional da Farmácia Picoense sobe ao Moinho do Frade, por onde passaram no século XX muitos milhares de alqueires de cereais. Impecavelmente recuperado, este moinho de vento é hoje um miradouro procurado por turistas e locais. «É um lugar muito simbólico», afirma Susana Vasconcelos. Da varanda do Moinho do Frade avista-se a Montanha do Pico e os currais de vinha, a Norte, e a ilha do Faial e os ilhéus da Madalena, a Oeste.​


A farmacêutica Susana Vasconcelos nasceu na ilha das Flores. Tirou o curso em Lisboa, mas escolheu o Pico para viver

Susana Vasconcelos nasceu na ilha das Flores. Licenciou-se na Faculdade de Farmácia de Lisboa e regressou aos Açores por opção de vida. «Aqui há mais tranquilidade e as pessoas são muito simpáticas», justifica.​

De carro ou a pé, dá a conhecer a ilha como se ali passeasse pela primeira vez. «Sei que já disse isto, mas o Pico é muito bonito».

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