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Três badaladas

​​​​​​Os utentes procuram o posto antes de irem ao hospital ou ao centro de saúde.

Texto de Patrícia Fernandes • Foto de Miguel Ribeiro Fernandes


Posto farmacêutico de Cativelos - Cativelos, Gouveia

O sino da capela de Santo António soa três badaladas. As ruas estão agitadas, fruto do mês de Agosto. À semelhança de outros lugares do país, Cativelos, freguesia do concelho de Gouveia, enche-se de gente e ganha uma nova vida. O calor aperta, mas não impede ninguém de tratar dos seus afazeres.

A poucos passos da capela encontra-se o posto farmacêutico móvel de Cativelos, que serve 800 almas. Ninguém diria pela sua aparência. Aberto desde 1989, foi criado para colmatar a falta que fazia uma farmácia na freguesia. Apesar de estar disponível três dias por semana, o posto equipara-se a uma farmácia no que diz respeito ao movimento.

De receita na mão e bem-humorado, António Figueiredo, de 77 anos, dirige-se ao posto farmacêutico para aviar os medicamentos. Os seus problemas de saúde assim o obrigam. «Eu tenho todas as doenças», ri-se o septuagenário. Toma medicação para a diabetes, próstata, ácido úrico e coração. Há 35 anos que frequenta este posto. Conhece bem a directora-técnica, Rosa Coelho, e o filho Tomás, também farmacêutico, desde pequeno. Deixar de contar com o apoio deles é hipótese que o antigo motorista não quer sequer considerar. «De um a dez, para mim esta farmácia vale dez. Não pode fechar!».


«Aqui somos todos primos ou tios e isso permite que se aborde com mais intimidade os problemas», diz o farmacêutico Tomás Coelho

Tomás Coelho considera a familiaridade com os utentes, numa terra onde todos se conhecem e sabem o nome uns dos outros, uma vantagem terapêutica. «Aqui somos todos primos ou tios e isso permite que se aborde com mais intimidade os problemas», diz o farmacêutico.


António Nunes aconselha-se com o farmacêutico sobre os medicamentos que toma para a tensão e o ácido úrico

«Amigos». É como António Nunes vê a família de farmacêuticos do posto, de que é cliente assíduo. Nascido em Cativelos, em tempos teve de abandonar a terra que o viu crescer. Esteve emigrado em França, onde trabalhou na indústria automóvel, depois na Alemanha, numa fábrica de sofás. A reforma trouxe-o de volta a casa e ao convívio com os companheiros das tardes no café. Mas também gosta de dar dois dedos de conversa na farmácia, onde procura conselhos sobre os medicamentos que toma para a tensão e ácido úrico. «É muito boa gente. São muito boas pessoas», reforça.

Numa população maioritariamente idosa, afastada dos principais serviços de saúde e necessitada de cuidados especiais, ter um rosto conhecido é fundamental. «As pessoas têm à-vontade para nos contar não só os problemas de saúde, mas também os que têm em casa. O médico vem menos vezes, tem as consultas cheias, o que implica estar um, dois meses à espera e, por isso, vêem no farmacêutico a pessoa mais próxima para as ajudar a solucionar um problema», relata Tomás.


Muitos idosos vivem sós. Os filhos foram trabalhar para longe

A família Coelho tem plena noção da realidade dos habitantes de Cativelos: «Muitos vivem sozinhos, outros têm os filhos a residir nas grandes cidades e no estrangeiro. São pessoas que necessitam de cuidados suplementares». Se parte destes cuidados é garantida pelos serviços de apoio domiciliário dos lares de idosos, a medicação é assegurada pelo posto, que vigia a adesão à terapêutica. «Somos nós que relembramos as horas da toma do medicamento, que verificamos se o andam a tomar, perguntamos se tem tido algum sintoma anormal e necessitam de ir ao médico… Se as pessoas não têm ninguém à volta delas, temos de ser nós a estar alerta para estes sinais», considera o farmacêutico.

Se o posto desaparecesse daqui, Tomás não duvida de que as consequências seriam dramáticas. Acredita que 60 a 70 por cento dos utentes deixariam de tomar a medicação na posologia indicada pelo médico. «Muitas vezes vêm hoje porque acabou o medicamento da hipertensão e se for preciso voltam no dia seguinte porque acabou o da diabetes. Se tivessem de se deslocar a outro sítio, que implicasse um custo, iriam aguardar que acabassem mais medicamentos para aí, sim, aviar a receita toda», alerta. 


Maria do Rosário Sancho tem diabetes, doença da tiróide e colesterol

Maria do Rosário Sancho nem quer ouvir falar nessa possibilidade: «Faz-me muita falta. Se fechasse, seria um problema para mim e para outras pessoas como eu».

A utente de 68 anos vai ao posto móvel com frequência para lhe dispensarem os medicamentos para a diabetes, a tiróide e o colesterol. Vive sozinha há sete anos. Resta-lhe apenas a companhia de três gatos, dois cães e das memórias de quando trabalhava no sector da resina, em Vila Nova de Tazem. Não tem viatura própria. «Quem tem carro desloca-se, mas eu não. Se vou a Seia, “bota cá 20 euros”. Se vou a Gouveia, “bota cá mais 13 euros”. Para onde iria a minha reforma?», pergunta Maria.

No posto, para além de profissionais de saúde tem «amigos» que a desenrascam noutras necessidades. «Não vejo da vista esquerda, fui operada à direita e eles atendem-me a qualquer hora e ainda me lêem as cartas». Rosa e Tomás Coelho lêem e traduzem correspondência, levantam os vales de reforma, fazem pequenos recados em Gouveia. Pequenos grandes serviços que fazem «com todo o gosto». Maria agradece e retribui: «Eles estão sempre lá para mim, e eu estou cá para eles».

 

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