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Uma dor interior

​​​​​​​​​​​​Falta de medicamentos agrava desigualdades regionais no acesso à Saúde.

Texto de Carlos Enes e Carina Machado • Foto de Pedro Loureiro

A falta de medicamentos, que atingiu um máximo histórico este ano, penaliza mais os portugueses que vivem nos distritos do Interior. Esta é a grande conclusão da análise regional dos resultados de uma sondagem realizada em Abril pelo Centro de Estudos e Avaliação em Saúde (CEFAR), junto dos utentes de 2.097 farmácias de todo o país.



Em Beja, o problema afectou 68% dos doentes e na Guarda 67%. Também nos distritos de Bragança, Viseu e Portalegre as indisponibilidades atingiram mais de 60 por cento das pessoas. O desvio para a média nacional, de 52%, é estatisticamente significativo. Na prática, representa o agravamento das desigualdades territoriais no acesso à Saúde.


A sondagem do CEFAR revela que 371 mil portugueses tiveram de interromper a terapêutica prescrita pelos médicos nos últimos 12 meses. Este número corresponde a 5,7% dos inquiridos. Mais uma vez, este resultado dispara nos distritos do Interior. Em Beja, a interrupção de tratamentos atingiu quase o dobro das pessoas: 9,7%.


«As pessoas estão habituadas à embalagem, à cor das letras, ao comprimido. Fazem confusão e descompensam», lamenta Domingos Francisco, médico em Ferreira do Alentejo

Os médicos testemunham o sofrimento das populações mais isoladas, pobres e envelhecidas. «Tenho muitos doentes com patologia crónica que não sabem ler, e os que sabem têm uma baixíssima literacia em saúde», descreve Domingos Francisco, médico de família em Ferreira do Alentejo. Para estas pessoas, qualquer mudança no anti-hipertensivo ou antidiabético habitual é problemática. «Estão habituadas à embalagem, à cor das letras, ao comprimido. Por isso, regra geral, reagem muito mal às substituições, fazem confusão e descompensam», lamenta.


«Se um doente crónico está bem controlado, não mudo a medicação. Mas é uma luta que tenho vindo a perder diariamente», desabafa Mercedes Bravo, médica em Mértola

Mercedes Bravo, médica no Centro de Saúde de Mértola, tem uma regra: «Se um doente crónico está bem controlado, não mudo a medicação», assegura. Na verdade, tinha uma regra. «É uma luta que tenho vindo a perder diariamente», desabafa. Mercedes conta que tem «pessoas com hipertensão, diabetes e Parkinson a voltar repetidas vezes ao centro de saúde» porque não encontram na farmácia o que ela lhes receitou.

A sondagem do CEFAR captou com precisão este fenómeno. Em Beja, 32 por cento dos doentes foram forçados a recorrer a consultas de substituição da prescrição. O distrito é o terceiro mais afectado por este problema, a seguir a Bragança e a Viseu.

O despovoamento, a pobreza e o encerramento em massa de extensões de saúde registados nas últimas décadas potenciam de forma drástica os danos na adesão à terapêutica causados pelas falhas de medicamentos. Mértola é um bom exemplo. Com 1.293 km² de área, é o sexto concelho mais extenso de Portugal. Com 7 mil habitantes, é também um dos mais despovoados. «As pessoas estão muito dispersas, vivem isoladas, por vezes sozinhas nos montes, muitas não têm apoio. E nós não conseguimos fazer domicílios, têm de ser elas a deslocar-se de autocarro ou de táxi. Se pensar que tenho doentes que fazem 60 quilómetros para vir à consulta, imagine a angústia desta gente», descreve Mercedes Bravo.



No Portugal profundo, o acesso a uma consulta é por vezes penoso. Muitos doentes, colocados perante a necessidade imprevista de voltar ao centro de saúde só para substituir a prescrição, acabam por interromper os tratamentos. Em Almodôvar, há centenas de pessoas a viver na serra, em casas isoladas. Ocupam-se do pastoreio e da pequena agricultura, na produção de queijos artesanais e aguardente de medronho, ou na extracção de cortiça. A maioria não tem carro ou sequer carta de condução, nem acesso fácil aos transportes colectivos. «Quando depois da consulta não conseguem aviar os medicamentos e têm de voltar para os mudar, queixam-se, como é óbvio. Não é fácil nem barato para ninguém», lamenta o médico de família Rafael Reis.

Se subirmos no território, descemos ao mesmo inferno. «As pessoas queixam-se – e muito. O nosso centro de saúde, ainda por cima, está situado um bocado fora de eixos. Coitados dos utentes! Usam muito o telefone, mas não é solução», concorda Teresa Rafael, médica em Mirandela.

Na Guarda, 67% dos doentes sofreram com faltas de medicamentos e 31% foram forçados a regressar aos centros de saúde para resolver o problema. «Costumo dizer a brincar que a população que sirvo não é da terceira, é da quarta idade», retrata Lelo Rodrigues, médico do Centro de Saúde de Vila Nova de Foz Côa. Trabalha aqui há 34 anos, é testemunha privilegiada e angustiada do despovoamento e das suas chagas. «O Interior são os velhos, e mesmo esses já vão sendo poucos», desabafa. Quando começou a trabalhar, o centro de saúde tinha mais de 15 mil utentes inscritos. Hoje, em todo o concelho vivem umas 7.200 pessoas, menos de metade.  

As gravuras rupestres deram fama à terra, mas não fixam os jovens. «Não há empregos, nem incentivos, e agora nem medicamentos há!», suspira Lelo Rodrigues. No seu ficheiro tem 1.300 doentes. Vive alarmado com o facto de muitos serem induzidos em erro pelo “pisca-pisca” dos medicamentos. Se falha a sinvastatina de 10mg mas ainda há a de 20mg, não é fácil para doentes da terceira ou da “quarta” idade andar a partir comprimidos ao meio. Quando desaparece o alprazolam 0,5mg, mas fica o de 0,25mg, como explicar-lhes que devem tomar dois comprimidos? O risco é particularmente grave no caso dos anti-hipertensores. «Os pacientes descompensam porque não há a dosagem certa, e em vez de um têm de tomar dois ou três comprimidos», alerta o médico.


«A decisão da troca não pode ser imediata», alerta Hugo Coutinho, médico em Vinhais

As faltas afectam a confiança dos doentes nos médicos e nas farmácias. A tensão invade muitas vezes a relação médico-doente. «Os doentes chegam-nos das farmácias com queixas de que os fármacos estão esgotados e pedem-nos cinco minutos para mudar a receita. Por vezes, é difícil que compreendam que a decisão da troca não pode ser imediata», comenta Hugo Coutinho, médico em Vinhais, distrito de Bragança.

Os sistemas informáticos de apoio à prescrição não ajudam muito. «Tenho de consultar a ficha do doente, de abrir o formulário de prescrição», descreve Teresa Rafael. «E toda a informática é lenta, os servidores são muito maus», critica.

A busca de alternativas terapêuticas exige um esforço adicional aos prescritores, que requer tempo, especialmente perante os doentes mais vulneráveis e polimedicados. «Há muitos factores a ponderar quando se tem pela frente alguém com co-morbilidades, a fazer sete ou oito medicamentos diferentes. Mesmo dentro da mesma classe terapêutica, as substâncias divergem nos tempos de acção e nos efeitos colaterais, e as medicações para as diversas patologias interferem umas com as outras», recorda Hugo Coutinho. 


«Quando somos obrigados a mudar de substância, os efeitos secundários são maiores», lamenta a endocrinologista Inês Sapinho

Os médicos são testemunhas dos danos para os doentes. «Quando há uma substituição, pode haver alterações da absorção, e uma dose que aparentemente é a mesma não ter o mesmo resultado», previne Inês Sapinho, endocrinologista. Em Sines, recebe pessoas vindas de todo o Alentejo e Algarve. «Quando somos obrigados a mudar de substância, os efeitos secundários são maiores», acrescenta. Nas regiões onde o acesso ao médico é mais difícil, «o esclarecimento de alguma situação pode não ser tão eficaz e isto em certos casos é perigoso». 

«As substituições dão sempre desarranjos», subscreve Teresa Rafael, médica no Centro de Saúde de Mirandela. «Há faltas noutras áreas, mas não me preocupam tanto como na medicação para a tensão arterial ou a diabetes», afirma. Para ajudar os doentes, ela própria procura muitas vezes os medicamentos de farmácia em farmácia.

Na raia, quando os familiares têm posses atravessam a fronteira para arranjar medicamentos. «Quando não há mesmo alternativa, Espanha é a única solução. Há casos em que a falta de um medicamento coloca o doente em risco de vida e, quem pode, não olha a meios», relata Mercedes Bravo.​

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