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Viagem no tempo

​No concelho de Tavira, a 14 ​km e a alguns séculos do litoral.​​​

Texto de Sónia Balasteiro • Foto de Mário Pereira

​«Este é outro Algarve», anuncia Bráulio Bota, atrás do balcão da pequena farmácia com o seu nome, logo à entrada de Santa Catarina da Fonte do Bispo, no concelho de Tavira. 

Os 14 quilómetros entre a freguesia e a costeira sede de concelho parecem séculos. Separam o progresso dos problemas de desenvolvimento. A azáfama da quietude. O litoral do Interior. 

Na freguesia, essencialmente rural, vivem menos de duas mil almas. A maioria com mais de 70 anos. A idade obriga, com demasiada frequência, a fazer contas à vida. «Santa Catarina é mais Interior do que muitas zonas junto a Espanha», assevera o proprietário e director-técnico da Farmácia Bota. 

Já lá vão 30 anos desde aquele momento da sua vida em que trocou o ensino pela farmácia. Muito mudou desde então. E não foi para melhor. A começar pela vinda de médicos. Antes, havia dois no centro de saúde. Agora, só há um e não é sempre. «Quando falta, não há. Nas férias, por exemplo, é difícil». 

Na estrada principal que corta a freguesia não se vê vivalma. O casario térreo permanece em silêncio. Os anciãos ocupam os dias em casa ou no café, os mais novos rumaram a outras paragens à procura de sustento. 


Carlos Soares sente-se em família na farmácia

Carlos Soares, de 54 anos, contraria as estatísticas. Veio aqui parar há nove meses, de Abrantes, na região Centro. Chegou por amor a uma algarvia com quem casou e acabou por ficar. Gosta de viver neste lugar pouco movimentado. Sofre de depressão e agradece o sossego.

A farmácia é um lugar onde vem com frequência. «É muito familiar», elogia. «Somos sempre bem recebidos». 


Lisbeth Marrs é cliente há 23 anos, desde que veio viver para o Algarve

Lisbeth Marrs, inglesa de 68 anos, vem à Farmácia Bota desde que chegou a Santa Catarina, há 23 anos. 

Visitou a zona em 1994, altura em que lhe falaram numa casa simpática que estava à venda. Ela, primeiro, hesitou: não queria deixar os dois filhos em Inglaterra. Mas acabou por ceder à vontade do marido. Três anos mais tarde, compravam aquela mesma casa. 

No início sentiu saudades da família. Mas apaixonou-se pela zona. Pertencia ali. Quando o marido morreu e lhe perguntaram se queria voltar a Inglaterra, recusou. «Aqui é a minha casa, vou ficar até morrer», determinou. 

Para este apego a Santa Catarina contribui a simpatia dos habitantes da freguesia. «As pessoas são muito amigas dos estrangeiros. Não há diferença. Tenho amigos portugueses», sorri Lisbeth. Sente esse mesmo apreço na farmácia. «Tratam-me muito bem. Têm sempre um sorriso. Explicam tudo muito bem».

Vem sobretudo comprar produtos de uso veterinário para os seus três cães, conta a antiga enfermeira do exército inglês. 

Lisbeth vai continuar por aqui. A excepção é o Verão, altura em que o calor a manda procurar o clima mais fresco do seu país natal. «Não gosto nada de calor». 

O Verão é a altura em que Santa Catarina da Fonte do Bispo faz o movimento oposto ao Algarve da costa. Com as férias dos seus habitantes, a freguesia fica ainda mais deserta. Ninguém vem passar o estio aqui.


Bráulio Bota trocou o ensino pela farmácia há 30 anos

 «As pessoas confundem o Algarve. Há outro Algarve que não é da costa. É Interior, é este», comenta o director-técnico Bráulio Bota. 

Uma interioridade que amiúde deixa a farmácia em risco. «Mantenho as portas abertas com muito sacrifício. A população é idosa, tem pouco poder de compra», explica o farmacêutico. 

Ivone Janota Gomes, de 52 anos, é a única funcionária além do director-técnico. Natural de Santa Catarina, não lhe falta à-vontade com os utentes que conhece desde sempre. «É quase família. Há famílias das quais já conhecemos a quarta geração». São 30 anos a atender na farmácia. 


Lídia de Jesus vai à farmácia buscar medicamentos e falar da vida​

Nota-se a intimidade da ajudante técnica com Lídia de Jesus, de 73 anos. É visita frequente. «Venho bastantes vezes. Venho buscar todos os medicamentos que nos são receitados, aí uma vez por semana». 

Desta vez, veio buscar medicamentos para o marido. «Aqui são muito simpáticos. Explicam tudo muito bem. É uma relação muito próxima», descreve. Quando chega ao balcão, a conversa não se resume a medicamentos, acrescenta. «Fala-se de todo o historial que se traz da doença, disto, daquilo. Fala-se da vida». Olha para Ivone, ali bem perto. «É isso, não é, Ivone?», pergunta. E ela confirma.​​

 

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