Serviços farmacêuticos e sustentabilidade das farmácias europeias marcam Jornadas da Farmácia Latina
Este encontro envolveu ainda uma visita ao Vaticano, onde o Papa Leão XIV recebeu os farmacêuticos comunitários europeus, representados por uma comitiva do PGEU.
Texto de Ana Rita Cunha
Os representantes dos farmacêuticos comunitários de Portugal, Espanha, França, Itália e Grécia voltaram a reunir-se nas Jornadas da Farmácia Latina, que decorreram nos dias 26 e 27 de outubro, em Bolonha, Itália. Portugal esteve representado pela ANF e pela Ordem dos Farmacêuticos.
Organizada pela Federazione Ordini Farmacisti Italiani (FOFI) e pela Federfarma, esta edição centrou-se na evolução dos serviços farmacêuticos e nos desafios de sustentabilidade económica das farmácias, enquanto rede essencial à prestação de cuidados de saúde de proximidade.
A presidente da ANF, Ema Paulino, apresentou a evolução da remuneração das farmácias comunitárias em Portugal e as medidas adotadas para mitigar os efeitos de uma política de preço dos medicamentos que vinha a penalizar o setor e o país. Entre as medidas referidas, destacou a alteração do conjunto de países de referência para efeitos de comparação internacional, com a inclusão da Bélgica; os critérios excecionais que têm permitido atualizar os preços dos medicamentos mais baixos em linha com a inflação; e a aplicação de mecanismos destinados a travar reduções excessivas nos preços dos medicamentos.
Estas medidas permitiram atenuar parte do impacto do aumento dos custos operacionais, mas persistem desafios estruturais à sustentabilidade económica das farmácias e à atratividade do mercado português. Ema Paulino defendeu, por isso, a necessidade de adequar o modelo de remuneração à evolução do mercado, à complexidade e ao valor das terapêuticas e dos serviços prestados. «A evolução do modelo de remuneração é essencial para refletir as mudanças do mercado e preservar o acesso equitativo aos cuidados de saúde através da rede de farmácias», afirmou.
A relevância desta discussão é reforçada pelo impacto da rede de farmácias na saúde e na economia. Segundo o “Estudo do Valor da Rede de Farmácias em Portugal”, também apresentado no encontro, a rede sustenta mais de 53 mil empregos, gera 1,12% do PIB nacional e constitui a infraestrutura de saúde mais próxima para 82% da população, o que se traduz em mais de 570 mil atendimentos por dia.
No que toca aos serviços farmacêuticos, a presidente da ANF partilhou os desenvolvimentos na dispensa em proximidade de medicamentos hospitalares e na integração das farmácias no programa de tratamento com metadona e na campanha de vacinação sazonal contra a gripe e a COVID-19 na época 2026/2027, em complementaridade com o SNS. Entre as prioridades futuras, apontou o reforço da intervenção das farmácias na gestão de situações clínicas ligeiras, no acompanhamento de pessoas com doenças crónicas e na participação em programas nacionais de rastreio e de testes rápidos.
Por sua vez, o bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, Helder Mota Filipe, salientou o papel dos farmacêuticos enquanto profissionais na linha da frente dos cuidados de saúde, essenciais para melhorar o acesso das pessoas. Na sua intervenção, abordou a campanha de vacinação sazonal contra a gripe e a COVID-19 e a dispensa em proximidade de medicamentos hospitalares, bem como o desenvolvimento das competências dos farmacêuticos, a estratégia de elaboração de normas profissionais e novas soluções tecnológicas no setor.
As experiências dos restantes países evidenciaram diferentes caminhos de evolução da farmácia comunitária para responder a necessidades comuns. Itália, que acolheu o evento, centrou a sua intervenção no impacto da evolução da telemedicina nas farmácias comunitárias, com a disponibilização de serviços como eletrocardiogramas, monitorização da pressão arterial, teleconsulta, telemonitorização e teleassistência. Espanha apresentou o seu programa de farmácia de proximidade em meio rural e destacou o papel das farmácias no acesso ao medicamento em situações de crise. França abordou a remuneração das farmácias, a cadeia de abastecimento do medicamento e o desenvolvimento de novas competências clínicas, enquanto a Grécia apresentou a evolução dos serviços farmacêuticos e o contributo das farmácias para a resposta às necessidades das pessoas e para a prevenção da doença.
Apesar das diferentes realidades nacionais, as intervenções convergiram na importância de reconhecer e reforçar o papel e as competências das farmácias comunitárias no apoio à população e de assegurar modelos de remuneração sustentáveis.
Após as Jornadas, as delegações dos cinco países deslocaram-se à Cidade do Vaticano, onde o Papa Leão XIV recebeu, no dia 28 de outubro, uma comitiva do PGEU, em representação dos farmacêuticos comunitários europeus. A ANF integrou a visita à farmácia do Vaticano e acompanhou a audiência geral na Praça de São Pedro, ocasião em que o Papa saudou e abençoou os presentes.
A delegação portuguesa foi composta por Ema Paulino, Teresa Almeida, Nuno Cardoso e Manuel Talhinhas, por parte da ANF, e por Helder Mota Filipe, Catarina Coelho, Ricardo Santos, Diogo Morim e Diana Costa, em representação da Ordem dos Farmacêuticos.