84.º Congresso Mundial da FIP aponta prioridades para o futuro da profissão
O maior encontro mundial da profissão farmacêutica promoveu a partilha de experiências e uma reflexão alargada sobre o futuro, com a participação da ANF.
Texto de Ana Rita Cunha
Montreal, no Canadá, recebeu, entre 30 de agosto e 2 de setembro, profissionais, investigadores e líderes do setor farmacêutico de todo o mundo para uma reflexão alargada sobre a evolução da profissão, no âmbito do 84.º Congresso Mundial da FIP. Dos debates e das experiências partilhados ao longo do encontro emergiram quatro grandes linhas orientadoras para o futuro: uma visão integrada da saúde e da profissão farmacêutica, o reforço dos cuidados de proximidade, a inovação sustentada em conhecimento e evidência, e a capacitação contínua das equipas.
A primeira passa, desde logo, pela necessidade de assegurar uma visão integrada da saúde e da profissão farmacêutica, aproximando ciência, prática e educação para responder de forma mais articulada aos desafios em saúde. Esta ideia esteve refletida no próprio lema do Congresso, “One Health, One Pharmacy – Bridging science, practice and education", e foi destacada pelo presidente da FIP, Paul Sinclair, na sessão de abertura.
«Quando aproximamos a ciência, a prática e a educação, não só nos tornamos Uma Só Farmácia e Uma Só Saúde, como também nos unimos enquanto Uma Só FIP», afirmou, apelando à ação conjunta para fazer avançar a profissão farmacêutica ao nível mundial e reforçar o contributo dos farmacêuticos para a saúde global. Esta abordagem integrada assume particular relevância perante os atuais desafios, como o envelhecimento da população, a pressão sobre os sistemas de saúde, e os diferentes contextos políticos e geográficos.
A segunda linha orientadora aponta para o reforço da integração das farmácias nos cuidados de proximidade e nas respostas de Saúde Pública. A prevenção da doença, a vacinação, a gestão da doença crónica e a intervenção em Situações Clínicas Ligeiras destacaram-se como áreas em que as farmácias podem ampliar o seu contributo para respostas mais acessíveis, integradas e sustentáveis em saúde, em articulação com os restantes níveis de cuidados e tirando partido da capacidade instalada.
A terceira linha centra-se na inovação sustentada em conhecimento e evidência. A inteligência artificial, a digitalização e a investigação a partir da prática profissional representam novas possibilidades para transformar a prestação de cuidados, tornando-a mais personalizada, eficiente e ajustada às necessidades das pessoas. Os exemplos apresentados no encontro evidenciaram o potencial destas ferramentas e a importância de assegurar que a inovação é orientada pela evidência.
Por fim, a capacitação contínua das equipas das farmácias surgiu como condição essencial para assumir novas responsabilidades e para acompanhar as necessidades e exigências das pessoas, em articulação com a Organização Mundial da Saúde. Num cenário generalizado de escassez de profissionais de saúde, o reforço das competências e da colaboração entre diferentes níveis de cuidados assume um papel determinante na construção de sistemas de saúde mais resilientes e sustentáveis.
«Muitos dos caminhos apontados neste Congresso já têm expressão concreta em Portugal. A vacinação nas farmácias, a dispensa em proximidade de medicamentos hospitalares e o percurso que estamos a desenvolver na intervenção em Situações Clínicas Ligeiras são exemplos da capacidade do setor para transformar a inovação em respostas efetivas de Saúde Pública, fazendo de Portugal uma referência além-fronteiras. Esta experiência deve dar-nos confiança e ambição para continuar a avançar e ampliar o contributo das farmácias para a saúde das pessoas e para a sustentabilidade do sistema de saúde», afirmou Ema Paulino, presidente da ANF.
A realidade portuguesa esteve em destaque nesta edição do Congresso Mundial da FIP, nomeadamente através da apresentação das principais conclusões do “Estudo do Valor da Rede de Farmácias em Portugal", desenvolvido pela Nova SBE. Responsável pela apresentação, a presidente da ANF destacou que «a rede de farmácias em Portugal tem abrangência nacional e é uma primeira porta de entrada para os utentes no sistema de saúde».
A apresentação permitiu partilhar internacionalmente evidência sobre o valor que as farmácias comunitárias geram para as pessoas, o sistema de saúde, a economia e o ambiente no país, contribuindo para uma reflexão global sobre a profissão.
Trabalhos científicos em destaque
A participação da Associação no maior encontro mundial da profissão farmacêutica ficou marcada pela apresentação de mais de 20 trabalhos científicos, refletindo a diversidade da intervenção das farmácias, e o compromisso com a inovação e uma prática profissional cada vez mais baseada em evidência.
Os trabalhos apresentados abrangem diferentes áreas de grande relevância para as pessoas, para as farmácias comunitárias e para o sistema de saúde, como a vacinação em contexto de farmácia, o contributo das farmácias na vigilância epidemiológica e o impacto social da Associação Dignitude.
O trabalho “Real-World Oral Corticosteroid Treatment Patterns in Portuguese SLE Patients: Final Results from the TRANSfORM Study" foi selecionado para comunicação oral, realizada pelo diretor de Soluções e Evidência em Saúde da ANF, António Teixeira Rodrigues. A seleção evidencia a relevância da investigação desenvolvida e o seu contributo para a inovação na área da saúde.
Participantes assinam Declaração de Montreal
Os participantes na 84.ª edição do Congresso Mundial da FIP, incluindo a ANF, subscreveram a Declaração de Montreal sobre Doenças Não Transmissíveis.
O documento reafirma o compromisso da FIP e dos seus membros com o reforço do contributo da farmácia comunitária na prevenção e gestão das doenças não transmissíveis, consideradas um dos maiores desafios da saúde ao nível global, e com a promoção da saúde. Além disso, a declaração sublinha o papel dos farmacêuticos enquanto os profissionais de saúde mais acessíveis para as populações, apelando a uma maior integração destes profissionais nas equipas multidisciplinares, contribuindo para sistemas de saúde mais acessíveis, sustentáveis e centrados nas pessoas.